domingo, 24 de junho de 2018

Prefácio - Por Émerson Monteiro






Isto de isenção absoluta em matéria de assuntos humanos já se sabe em definitivo que não existe. Na historiografia também acontece do mesmo jeito. Desde a seleção do tema a ser abordado, aos métodos adotados, em tudo por tudo o autor põe sua capacidade de escolha, a demonstrar o quanto difícil será fugir da participação pessoal naquilo de que trata. Tem sido assim desde que o primeiro homem se deteve na investigação da história, e de certeza assim continuará pelo correr dos séculos adentro. Aonde tocar, ali nascerá nova história, por mais que intente aprofundar os temas e as versões que os enquadram. O que fará a diferença serão o esmero e a diligência dessas abordagens. O afinco e a seriedade com que mergulhar naquilo que recolhe de depoimentos, documentos, interpretações anteriores, peças e materiais encontrados na fria matemática de aproximação dos esforços.
Cristina Couto compõe esse quadro de seriedade no trato dos compostos da história de Lavras da Mangabeira. Juntamente com Joaryvar Macedo, Melquíades Pinto Paiva, Batista de Lima, Dimas Macedo e João Tavares Calixto Junior, que formam o panteão dos historiógrafos a primar em recolher com carinho e acendrado amor peças raras do passado dessa comuna interiorana do Ceará, reconhecidamente rico em característica antropológicas, etnográficas e históricas do período feudal nordestino brasileiro, e delas formam o que restou de nossos registros em verdadeiras obras literárias da maior importância do ponto de vista das ciências sociais, durante todo tempo. Há uma legenda de que Lavras detém largo número per capita de intelectuais e artistas além da média dos demais rincões do Estado, o que a situam dentre os lugares privilegiados neste conceito. E seus historiógrafos bem caracterizam tais pretensões, sobretudo no que tange ao zelo e a qualidade do que produzem.
Este trabalho de Cristina agora, mais uma vez, demonstra a largas tais considerações. No que diz respeito ao trágico Episódio de Princesa, na Paraíba, que envolveu o primeiro dos netos de Dona Fideralina, a matriarca de quatro costados das Lavras e dos Augustos, a autora encetou pesquisa inolvidável, digna dos grandes missionários da investigação histórica, indo bem dentro das profundidas possíveis daquilo que quis conhecer e reunir. Abriu mão das comodidades rotineiras, viajou aos lugares dos acontecimentos, visitou familiares dos principais personagens, avassalou nas matérias anteriores, vasculhou os documentos oficiais do processo, interpretou coerentemente livros, jornais e revistas que abordaram, à época, o polêmico assunto, e produziu texto admirável pela clareza e totalidade daquilo em que sentiu o dever científico de bem informar o leitor, dada a sua qualificação acadêmica de propiciar à posteridade uma visão crítica da momentosa e tão traumática ocorrência envolvendo o médico cearense Ildefonso Augusto de Lacerda Leite.
Além do mais, Cristina Couto possui um texto escorreito, prático e fluente, ao estilo dos bons romancistas, no que prima enfeixar e desenvolver os subsídios que localizara no decorrer da longa caminhada, relíquias ainda existentes quanto ao incidente histórico e suas inevitáveis consequências pessoais e sociais.
Outra vez está de parabéns a cultura histórica do Ceará, quiçá do Brasil, com a maturação desta escritora e da sua produção científica, motivo da melhor justiça aos que ora se debruçam em conhecer o seu apreciável trabalho.

                                               Emerson Monteiro




quinta-feira, 10 de maio de 2018

MENSAGEM DE PESAR


É com profundo presar e uma tristeza imensa que a Academia Lavrense de Letras comunica o falecimento da acadêmica, Neide Freire, ocupante da Cadeira Nº 3, cujo patrono era o educador lavrense, Filgueiras Lima. Neide como todos nós amou sua terra e dela nunca esqueceu. Sempre que lhe fazia uma visita o assunto era Lavras e sua gente. De memória invejável lembrava de tudo que viveu naquela pequena cidade que foi seu berço e seu amor primeiro. 
Fica com Deus amiga querida.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Cariri Cangaço - Edição Fortaleza/2018.

Mesa solene de Abertura do Cariri Cangaço - Fortaleza/2018.

Manoel Severo, Ingrid Rebouças e Nenenzinha Mangueira.

Dr. Paulo Quezado e o Poeta Barros Alves.

Num projeto ousada a Academia Lavrense de Letras e o Instituto Cariri do Brasil, realizam em Fortaleza o Cariri Cangaço – Edição/2018. A noite de abertura foi no auditório Murilo Aguiar, da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, no dia de 26 de abril de 2018, às 19 horas. A Mesa Solene foi presidida pelo deputado estadual Heitor Ferrer, representando o presidente da Assembleia Legislativa, Zezinho Albuquerque, econtou ainda, com as presenças do deputado federal, Raimundo Gomes de Matos; representando o Congresso Nacional e a Comissão de Cultural da Câmara dos Deputados, do ministro Ubiratan Diniz Aguiar; presidente da Academia Cearense de Letras, do professor João Arruda; representando o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, do professor Benedito Vasconcelos; presidente da SBEC, do Dr.. João de Lemos; presidente do Instituto dos Advogados do Ceará, de Cristina Couto; presidente da Academia Lavrense de Letras e de Eduardo Renno; vice-presidente da Academia Cearense de Cinema.
A solenidade foi aberta pelo deputado estadual e Sócio Honorário da Academia Lavrense de Letras, Heitor Ferrer que ressaltou a "extraordinária iniciativa do empreendimento Cariri Cangaço em seu trabalho de aprofundar o estudo da história e das tradições nordestinas, fazendo da cultura uma das molas mestras para a transformação da sociedade, é uma honra  para a Assembleia Legislativa do Ceará acolher o Cariri Cangaço".  Logo em seguida à  execução do Hino Nacional Brasileiro, o promotor de justiça do Estado do Rio Grande do Norte, colecionador e pesquisador, conselheiro Cariri Cangaço, Ivanildo Silveira fez a apresentação do Cariri Cangaço aos presentes.
“Em seguida fez uso da palavra, representando a Câmara dos Deputados o deputado federal Raimundo Gomes de Matos que renovou o compromisso da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados; da qual é um dos componentes," ressaltou a importância do "trabalho digno de reconhecimento do Cariri Cangaço, tendo a frente meu conterrâneo Manoel Severo, que faz esse trabalho reunindo pesquisadores de todo o Brasil, hoje presentes em Fortaleza"

O ministro Ubiratan Diniz Aguiar, presidente da Academia Cearense de Letras em suas palavras ressaltou: "a esperança contida em iniciativas como o Cariri Cangaço, reunindo verdadeiros abnegados e defensores da cultura num trabalho sério e responsável." Lembrou, ainda, sua luta em defesa da cultura quando ocupava uma Cadeira na Câmara dos Deputados que teve em seu bojo a mudança constitucional dos recursos destinados à área da cultura," como também, festejou Fortaleza por receber o evento, e ainda, fez um convite para no próximo mês de agosto, todas as entidades ali reunidas e representadas pelo Cariri Cangaço, estarem participando no Teatro José de Alencar de um manifesto encabeçado pela Academia Cearense de Letras em defesa da cultura.


domingo, 15 de abril de 2018

Cariri Cangaço - Fortaleza/2018.













PROGRAMAÇÃO CARIRI CANGAÇO FORTALEZA 2018

QUINTA-FEIRA 
Dia 26 de Abril de 2018 

19h – Noite Solene de Abertura 
Assembléia Legislativa do Estado do Ceará
Av. Desembargador Moreira 2807, Dionísio Torres
Auditório Murilo Aguiar

Exposição O Cangaço em Papel Mache
ARCHIMEDES MARQUES
Aracaju-SE

Feira de Cordéis, Xilogravuras e Literatura do Cangaço

19h20min – Formação da Mesa de Autoridades
19h30min – Hino Nacional

19h30min – Apresentação do Cariri Cangaço
Por Conselheiro
IVANILDO SILVEIRA 
Natal-RN

19h45min - Fala das Autoridades

20h20min - Entrega de Comendas
MINISTRO UBIRATAN DINIZ AGUIAR
REITOR ROBERTO CLÁUDIO BEZERRA
FRANCISCO REGIS FROTA ARAUJO
VALDETÁRIO ANDRADE MONTEIRO
PAULO QUEZADO

Por Conselheiros 
JULIANA PEREIRA E ÂNGELO OSMIRO

20h50min - Cariri Cangaço, 
Onde a Verdadeira Alma Nordestina se Encontra 
MANOEL SEVERO BARBOSA

21h15min - As Crianças de Alma Nordestina e o 
Futuro da Cultura do Brasil de Raiz 
CECÍLIA DO ACORDEON
PEDRO MOTA POPOFF
DEISIELLY DO ACORDEON
PEDRO LUCAS FEITOSA
ERICA DO ACORDEON
FRANCINE MARIA


SEXTA-FEIRA
Dia 27 de Abril de 2018

8h30min - Casa José de Alencar
Av. Washington Soares, 6055
Universidade Federal do Ceará
9h - "O Menino do Cordel e do Baião"
PEDRO MOTA POPOFF
Bauru-SP

9h00min - Comenda Alcino Alves Costa da SBEC
BENEDITO VASCONCELOS
Mossoró-RN
Homenageados
NELI CONCEIÇÃO
WESCLEY RODRIGUES
NARCISO DIAS

9h15min - Lampião na Historiografia de Sergipe
Volume II
ARCHIMEDES MARQUES
Aracaju-SE

9h30min - O Coronelismo e sua Capilaridade Histórica 
FÁTIMA PINHO
Juazeiro do Norte-CE 

10h10min - Homenagem a Joaryvar Macedo
 "O Império do Bacamarte"
ROSALBA MACEDO
HELIO SANTOS
Fortaleza-CE

10h30min - Izaias Arruda x Paulinos: Novas informações 
sobre os desfechos das lutas
JOÃO TAVARES CALIXTO JUNIOR
Juazeiro do Norte-CE

11h10min - Fontes para a Historia do Ceará Colonial
PROFESSOR FRANCISCO PINHEIRO
Fortaleza-CE

ALMOÇO
Apresentação Cultural
QUIRINO SILVA E CÉLIA MARIA
João Pessoa-PB

14h15min - A Dura Vida no Sertão Brasileiro
RITA PINHEIRO, A Garimpeira da Cultura
Salvador-BA

14h30min - Lampião Decurião:Mito e Mistério
PAULO QUEZADO
Fortaleza-CE

15h10min - Apresentação do Aplicativo "Lampião-Herói ou Vilão"
RÚBIA LOSSIO
RENATA KALINA DE PAULO ALVES MACEDO
HÉRLON RIBEIRO PARENTE CORTEZ
Universidade Leão Sampaio - Juazeiro do Norte-CE

16h00min - Lançamento de "Documentos para a 
Historia de Missão Velha"
Os Coronéis das Terras dos Terésios
JOÃO BOSCO ANDRÉ
Missão Velha-CE

16h40min - Lançamento de "Pequenos Assombros"
BRUNO PAULINO
Quixeramobim-CE

COFFE BREAK COM APRESENTAÇÃO ARTÍSTICA
POETA GERALDO AMÂNCIO
ALDANISIO PAIVA
MAESTRO RAFAEL BRITO
IAN FERMON DE MORAES QUEIROZ

NOITE LIVRE

SÁBADO
Dia 28 de Abril de 2018

MANHÃ LIVRE

14h15min – Academia Cearense de Letras
Palácio da Luz - Rua do Rosário, 01 Centro

14h30min - Academia Maria Ester de Leitura e Escrita
RECEPÇÃO e APRESENTAÇÃO

14h45min - Formação da Mesa 

14h50min - Entrega de Diploma a Personalidades
LUITGARDE OLIVEIRA CAVALCANTI BARROS
REGINA PAMPLONA FIÚZA
JONAS LUIS DA SILVA, DE ICAPUÍ
ANTONIO VICENTE ALENCAR
Por Conselheiros
JORGE REMÍGIO, ARQUIMEDES E ELANE MARQUES

15h00min - Entrega de Diplomas Honra ao Mérito
FÁTIMA LEMOS
RÔMULO ALEXANDRE
NENENZINHA MANGUEIRA
Por
PAULO VANDERLEI E NOADIA COSTA


15h10min - Entrega de Diplomas da Academia Lavrense de Letras
CRISTINA COUTO

15h20min - Conferência "Padre Cícero Romão Batista"
LUITGARDE OLIVEIRA CAVALCANTI BARROS
Rio de Janeiro-RJ
MESA
BARROS ALVES
Fortaleza-CE
URBANO SILVA
Caruaru-PE

16h20min - Lançamento de "A Raposa do Pajeú"
Capitão Simplício Pereira da Silva
HELVÉCIO NEVES FEITOSA
Fortaleza-CE
VENÍCIO FEITOSA NEVES
Parambu-CE

16h50min - O Império dos Rifles
BIBI SARAIVA
Exu-PE

17h20min - Lançamento do Livro
 "A Tragédia de Princesa:O caso Dr. Ildefonso Augusto de Lacerda Leite"
CRISTINA COUTO
Lavras da Mangabeira-CE

17h40min - Poesia e Lançamento
Fideralina - A Matriarca de Ferro
POETA GERALDO AMÂNCIO

18h00min - Café com Arte
A Poesia e a Música de Alma Nordestina
FRANCINE MARIA
Ibiapina-CE
CECILIA DO ACORDEON
Redenção-CE
DEISIELLY DO ACORDEON
Ocara-CE
ERICKA DO ACORDEON
Sousa-PB

20h00min – Cine Teatro São Luiz
Praça do Ferreira, Centro

20h10min -  Roda de Conversa com o Diretor
DANIELL ABREW
FRANCISCO REGIS FROTA ARAUJO
ADERBAL NOGUEIRA
JONAS LUIS DA SILVA, DE ICAPUÍ

20h:45min - Exibição do Filme
"Onde Nascem os Bravos"
DANIELL ABREW
Fortaleza-CE

DOMINGO
Dia 29 de Abril de 2018

9h – Visita ao Memorial de Luiz Gonzaga
MARCELO LEAL
Fortaleza-CE

IMPORTANTE
Toda Programação totalmente grátis, inclusive a exibição no Cine São Luiz. Lembramos também que não é necessário inscrição prévia.




Cariri Cangaço Fortaleza 2018
Realização
INSTITUTO CARIRI DO BRASIL
Co-realização
ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS
ACADEMIA LAVRENSE DE LETRAS

Apoio
SBEC- SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DO CANGAÇO
GRUPO DE ESTUDOS DO CANGAÇO DO CEARÁ
ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO CEARÁ
CINE TEATRO SÃO LUIZ
CASA JOSÉ DE ALENCAR - UFC
ICC - INSTITUTO CULTURAL DO CARIRI
SOCIEDADE CEARENSE DE GEOGRAFIA E HISTORIA
GPEC-GRUPO PARAIBANO DE ESTUDOS DO CANGAÇO
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO PAJEÚ
LASER VÍDEO

Patrocínio
COLÉGIO MARIA ESTER
COLÉGIO DOM QUINTINO
CÂMARA BRASIL-PORTUGAL
Mídia e Redes Sociais
GRUPO LAMPIÃO CANGAÇO E NORDESTE
GRUPO OFICIO DAS ESPINGARDAS
COMUNIDADE O CANGAÇO
GRUPO HISTORIOGRAFIA DO CANGAÇO
GRUPO DE ESTUDOS CANGACEIROS
O CANGAÇO NA LITERATURA
GRUPO SERTÃO NORDESTINO
PROGRAMA RAÍZES DO SERTÃO


sábado, 10 de março de 2018

Fideralina – A Matriarca de Ferro. Por: Dimas Macedo




               A poesia popular do Nordeste é uma das grandes expressões da cultura brasileira. Se diferencia da poesia erudita pelo acento melódico da sua sonoridade. Destaca-se por ser uma poesia rematada e escandida, e por ser uma forma de criação literária que se vale da metrificação e da rima e da riqueza do vocabulário.
          Pertence a poesia popular ao gênero do cancioneiro e das cantigas de gesta que exaltavam os guerreiros na Idade Média. Daí, o seu sentido heroico, a sua construção ritmada e a sua aproximação com o armorial, que é a cultura popular elevada ao plano da erudição.
          O folheto de cordel e a cantoria distinguem-se na área da poesia popular: o primeiro, caracteriza-se pela reportagem, o resgate da memória e a glorificação dos feitos e personagens de valor histórico; já, a cantoria, possui no repente e no improviso os elementos da sua força criadora.
        Geraldo Amâncio tem se destacado, no Ceará e no Nordeste, como um dos nossos melhores cantadores e como um dos pesquisadores mais respeitados da nossa poesia popular.
         Viajou pelo Brasil e o mundo em busca de um mesmo sentido: o som das cantorias, as suas formas armoriais e os traços essenciais da sua expressão em diversos países. Mas eis que sempre retorna ao seu velho torrão – o Ceará.
         Geraldo tem dezesseis discos gravados, incluindo várias parcerias, e alguns livros publicados, dentre eles, enumerando-se os seguintes: De Repente Cantoria, A História de Antônio Conselheiro, Cantigas que Vêm da Terra, Gênios da Cantoria e Assim Viveu e Morreu Lampião, Rei do Cangaço.
          No seu livro O Beato José Lourenço, o Caldeirão e a Matança dos Romeiros (Fortaleza: Premius, 2017), com o seu talento de poeta, Geraldo Amâncio resgatou um dos episódios mais desumanos da história do Nordeste, que foi a destruição da comunidade do Caldeirão pelas forças reacionárias da nossa elite política.
          Agora, voltando-se mais uma vez para região do Cariri, Geraldo Amâncio conta a história da conhecida coronela de Lavras da Mangabeira, cujo perfil biográfico foi por mim tracejado em Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2017).
          No seu novo livro, Fideralina Augusto – A Matriarca de Ferro (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2018), Geraldo Amâncio escreve o poema mais expressivo do cancioneiro de Dona Fideralina Augusto, mostrando-nos que a sua trajetória e as suas ousadias deram-lhe, com certeza, uma tradição memorável.
           Trata-se de livro arquitetado com a erudição e o talento de um grande poeta, cujo repente o eleva nas páginas da nossa história literária, celebrando, de último, a memória de Fideralina Augusto, a nossa Matriarca de Ferro, que tanto de projetou na história política do Brasil.
                  
                                                                                                    
                                                                                                       
                                                                                                                    

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

SONS DE LAVRAS - Cristina Couto





A Rua da minha infância altiva e silenciosa começava a emitir os velhos e costumeiros sons noturnos ao cair da madrugada. O cantar dos grilos atrás dos antigos móveis da casa da minha avó enchia os nossos ouvidos e as nossas paciências, o crocitar das corujas por cima dos telhados vinda da velha Matriz de São Vicente Ferrer invadia a noite em tom assombroso, os gritos dos presos trancafiados na Cadeia Pública, clamando por liberdade há muito perdida, como se o clamor libertasse a voz em vez do corpo.

E assim, corria a noite em meio a musicalidade polifônica da pequena e pacata cidade, quando ao romper da aurora o apito do trem rasgava a madrugada, avisando a chegada de um novo dia, e, em meio aos apitos, sons de freios nos ferros, vozes se misturavam aos assobios e a movimentação dos chapeados que carregavam as bagagens, dos passageiros que desembarcavam e de outros que seguiam viagem, o maquinista reclamava a demora e o bilheteiro olhava atento o ingresso daqueles que cheios de esperança embarcavam no trem. E toda esse alvoroço agitava a pequena cidade que ao partir do trem voltava a sua rotina.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Morre compositor e cantor cearense Gilberto Milfont.








Gilberto Milfont, cantor e compositor cearense, morreu nesta quarta-feira, 13 de dezembro de 2017. Nasceu em Lavras da Mangabeira, no dia 7 de setembro de 1922.

Patrono da Cadeira Nº 18 da Academia Lavrense de Letras, e tem como acadêmico o grande violonista lavrense, Nonato Luiz, que como seu patrono engrandeceu Lavras, o Ceará e o Brasil com a música.

Milfont tinha 95 anos e viveu seu auge, como cantor e compositor, na década de 1950. Gravou mais de 500 composições e, entre elas, algumas pérolas de Haroldo Lobo, como "Um falso amor", "Batendo cabeça" e "Para seu governo".

A Academia Lavrense de Letras, a cidade de Lavras da Mangabeira, o Estado do Ceará e o Brasil perde mais um ícone da MPB.

Paz e luz ao nosso Confrade.



sexta-feira, 24 de novembro de 2017

MÃE DINDINHA - Por Jorge Emicles.



Acercar-se da casa grande do sítio Tatu, encravado no coração rural da velha Lavras da Mangabeira, à primeira vista é como chegar a uma dentre tantas centenas de milhares, de fazendas nordestinas. Tudo ali nos parece típico. Há a casa grande centenária, de paredes grossas, confeccionadas em tijolos de proporções descomunais para os padrões atuais. Há ao fundo o igualmente centenário açude, que mesmo já assoreado pela antiguidade de sua construção ainda é plenamente hábil em salvar os moradores e a criação local da medonha estiagem que ciclicamente afeta toda a região do nordeste brasileiro. Há os baixios, ao lado, que fazem brotar hoje a pastagem necessária ao sustento das criações de bovinos e ovinos, que, porém, não guardam mais os vestígios da antiga produção de cana-de-açúcar anualmente moída e transformada em rapadura no velho engenho. O engenho mesmo se identifica por um amontoado de engrenagens enferrujadas, já a descampado, porque o prédio que guarnecia a ferragem já não existe mais, destruído que foi pela quase criminosa ação do tempo, que não deixa nunca guardar a eternidade dos momentos de alegria ou enfado, quando perdidos no negrume obscuro do passado.
                   Não se guardaram, muito menos, pistas valiosas de o que se desenrolava por ali há cem anos apenas. Não fosse pelo relato oral dos descendentes, por exemplo, não seríamos capazes de reconhecer que a indústria que mais prosperou naquele pitoresco, aprazível e bucólico lugar, onde o silêncio reina soberano, convidando aos visitantes, senão a alguns momentos de contemplação diante da paisagem, por certo a um relaxante banho nas águas do velho açude, o que faria qualquer de nós absolutamente inocente da verdadeira seara que se colhia das entranhas daquela terra: a carne humana, negra e sofrida da escravidão. Era essa, afinal, a principal produção da gigantesca indústria oligárquica que se instalou na velha Lavras, maestralmente comandada inusitadamente por uma mulher. Não, contudo, por uma qualquer. Afinal, a cultura coronelista instalada no sertão não estaria nem um pouco disposta a gentilmente ceder o poder do jugo; a fortaleza do bacamarte e a autoridade do patriarcado a uma mulher, fosse esta quem fosse.
                   Para a história, esta mulher fez-se conhecer como a velha Fideralina Augusto Lima, matriarca de uma populosa família e maior de todas as expressões políticas de sua terra, sombreando inclusive vultos históricos regionais e nacionais como os de Bárbara de Alencar e Anita Garibaldi. Sua autoridade igualmente é reconhecida pela importância em relevantes passagens históricas da região sul cearense, como em face de sua íntima amizade com o Padre Cícero, de Juazeiro, sua contribuição para a atestação científica do milagre da hóstia (foi seu filho e médico Ildefonso uma das autoridades científicas que deram atestado da veracidade do acontecimento), sua indispensável participação nos fatos  que desembocaram na revolução de 1914, com a consequente derrubada do presidente do Estado, movimento que sagrou outro filho seu, Gustavo, como vice-presidente do Estado, para ciúmes e desgraça da astuta raposa que era Floro Bartolomeu. Também soube resistir, pelo prestígio ou pela bala, a todas as tentativas de destituí-la do soberano poder simbólico que sempre exerceu na região, mas igualmente em todo o Estado. Mais que em outros casos, o poder da velha matriarca era sobretudo simbólico, porque cargos públicos mesmo ela jamais os exerceu, muito embora sempre tenha tido a primazia da influência na nomeação de seus ocupantes.
                   A horda de seus maiores adversários políticos é composta quase sempre por sua própria parentela. Seja oriunda da irmã de sangue conhecida em família simplesmente como Pombinha, seja proveniente de seu próprio filho Honório, é do sangue dos Augusto que ela teve as mais severas resistências. A questão chegou ao cúmulo de ela haver determinado a deposição do filho Honório da chefia do partido governista a bala, através de cabras por ela muito bem armados e comandados pelo seu sempre fiel escudeiro, o filho Gustavo Augusto Lima, depois da mãe a maior liderança política de sua terra. Fez isso, contudo, não sem uma severa advertência a seus cabras, a de que quem porventura arrancasse sangue de Torto (como chamava a velha a seu filho Honório) pagaria com a própria vida. Esse inusitado fato nos prova que antes da grande líder política, era um coração de mãe que batia no peito daquela valente mulher.
                   Um historiador que contemple a velha casa do Tatu, em seus corredores hoje vazios pressentirá por certo a velha matrona a dar ordens a seus cabras, a dirigir os trabalhos da casa e da propriedade toda, a tomar conta de seus prepostos, a articular o futuro político de sua terra, através das inúmeras e firmes alianças que sempre fez com os coronéis regionais. Também encontrará semelhanças entre a casa grande do Tatu e a fortaleza de Maria Moura, personagem principal do derradeiro romance da imortal Rachel de Queiroz, reconhecidamente inspirada na velha Fidera.
                   Para a sua descendência, como é o nosso caso, o que vemos ao chegarmos à velha propriedade são, primeiro, as lembranças de criança, quando inocentes corríamos sob os domínios da velha matriarca, sem nos darmos conta das inusitadas refregas que já se deram por ali. Sem saber, éramos descendentes das riquezas que a escravidão gerou e do convencimento que o bacamarte impôs. Tudo isso bem regado a bastante sangue, seja de forasteiros, seja dos próprios membros da família. A verdade é que a família Augusto ainda não conseguiu se libertar totalmente da herança de violência dos tiranetes. Em seguida, as novas gerações dos Augusto eram informadas da imponência histórica de sua ascendência. Apesar da quase inexistência de vestígios, aquele velho sítio Tatu já foi o centro do mundo. Mundo comandado por uma mulher, que por sua realeza se encontrava acima de todos os homens, possuía o domínio sobre todas as armas e sobre todas as vontades de tantos quanto a cercavam. Era mandona, porém, sempre maternal com sua descendência. Chegou a aparar alguns netos em seu nascimento, e por toda a parentela era carinhosamente chamada de mãe Dindinha. Não descendíamos, portanto, da “coronela” de saias Fideralina, pois quem nos guardava em nossas brincadeiras de criança sempre foi a mãe Dindinha, mulher misteriosa, de imenso poder simbólico, que havia escondido uma botija cheia de ouro, a qual geração após geração seus descendentes procuram, mas que permanece encantada. A mesma mãe Dindinha que construiu o açude para toda a descendência, cuja fé era tão inabalável, que em certa ocasião, quando uma tempestade ameaçava arruinar a parede do reservatório, passou toda uma noite orando, pegada em seu rosário, para obter a preservação de sua construção, no que foi atendida pelos céus. Conhecíamos sim, a avó zelosa, que inconformada pela injusta morte do neto, em Princesa da Paraíba, mandou invadir o lugarejo para vingar o mal feito, tendo determinado a seus cabras que de cada homem abatido lhe fosse trazida uma orelha, tendo daí começado a decantada história de seu famoso rosário de orelhas, com o qual regularmente teria proferido suas orações.
                   Para além dessas carinhosas lembranças, embebidas tantas vezes na fantasia da meninice, nas lembranças da oralidade repassada por pessoas que não mais se encontram nesse plano e pelas lendas mesmo difundidas por diversas gerações a respeito de quem teria de fato sido essa inesquecível mulher, devoramos com imensa alegria a biografia da velha matrona recentemente lançada pelo ilustre jurista, escritor, poeta e historiador Dimas Macedo. Justa reverência que a história faz à imensidão dessa grande mulher; belo e criterioso trabalho que somente poderia ter nascido da grandiloquência de uma mente como a do culto Dimas Macedo.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Para a acadêmica Nenenzinha Mangueira


Nesse momento difícil de dor e pesar da nossa confreira, Nenenzinha Mangueira, nós que compomos a Academia Lavrense de Letras nos solidarizamos com a família pela perda da sua genitora, Mariquinha Mangueira.  A saudade acompanhará para sempre suas vidas, mas as lembranças e ensinamentos eternizará o exemplo de mãe, esposa, amiga e mulher que ela foi na sua trajetória terrena. 
Sinceros pêsames.
Fortaleza, 14 de novembro de 2017.
Cristina Couto.
Presidente.


sábado, 11 de novembro de 2017

Dona Fideralina Augusto - Mito e Realidade - Discurso no ICC -Por Cristina Couto.




Há quase um século de sua morte, Dona Fideralina Augusto ressuscita o mito para tornar sua história uma realidade. Enterrada nas cinzas do tempo pelos vassalos do seu feudo, Lavras da Mangabeira, ela não sossegou e nem deixou o nosso arqueólogo lavrense, Dimas Macedo dormir em paz, foram longos trinta anos de investidas, aparições e noites mal dormidas.

Aos poucos e cuidadosamente, nosso historiador, foi catalogando documentos, gravando e apontando depoimentos, visitando parentes, visitando biblioteca e arquivos, além de solicitar a colaboração dos amigos.
Aos poucos surgiam documentos, retratos e informações que montando o quebra cabeça das muitas peças de sua longa e tumultuada existência, resultou nesta grande obra que hoje foi apresentada, aqui, pelo garimpeiro do Cariri, o nosso amigo, Heitor Feitosa.

Tenho a impressão que o vulto da velha matriarca rondava aqueles que na sua história se envolvia. Que o diga o nosso colaborador, João Tavares Calixto Júnior, que incansavelmente e gentilmente fornecia documentos relativos a essa empreitada. Do nada encontrávamos documentos que nas mãos do escritor Dimas Macedo transformava-se em informações preciosas, fechando as lacunas deixadas por historiadores anteriores que não alcançaram o mundo mágico da informação. Foi assim, com Joaryvar Macedo, o pioneiro, e com Raquel de Queiroz, a entusiasta. Eles foram os verdadeiros descobridores dos sete mares da história caririense, e voltaram suas atenções para a história de Lavras da Mangabeira. Raquel de Queiroz em uma frase exterioriza e eterniza sua afirmação, quando disse: tudo começou numa pequena e velha cidade do sul do Ceará: Lavras da Mangabeira.

Em 2009, seu bisneto Melquiades Pinto Paiva, baseado nas pesquisas de Joaryvar Macedo escreve um livro sobre a sua bisavó, intitulado: Dona Fideralina Augusto Lima – A Matriarca do Sertão, mas não foi ele a quem ela escolheu para ser seu escafandrista, o revelador da sua alma, e como uma boa estrategista que sempre foi permaneceu quieta, tranquila, inabalável, esperando o momento certo para atacar. E, sorrateiramente coloca seu plano em ação: atacou ao sossego de Dimas Macedo.

Foram muitos ataques, investidas, batalhas e resistência, finalmente, o nosso poeta se rendeu e acenou à bandeira branca, ele, através da sua caneta poderosa e certeira ressuscitou a fênix mitológica de Lavras. Agora, ela volta a reinar como sempre reinou. Sua vida foi vivida com pólvora, sangue e tragédia; e sua história foi escrita com a caneta, a sensibilidade e a genialidade do seu conterrâneo maior Dimas Macedo.

Aquela que um dia desfilou nas ruas de Lavras em sua liteira carregada por quatro fortes escravos, hoje desfila nas páginas e nas mentes dos seus admiradores que guardarão nas suas memórias a trajetória de vida dessa grande personalidade feminina. Mulher forte, valente e destemida que ressuscitou dos mortos e ficará para sempre na história.

Crato, 03 de novembro de 2017.