terça-feira, 14 de novembro de 2017

Para a acadêmica Nenenzinha Mangueira


Nesse momento difícil de dor e pesar da nossa confreira, Nenenzinha Mangueira, nós que compomos a Academia Lavrense de Letras nos solidarizamos com a família pela perda da sua genitora, Mariquinha Mangueira.  A saudade acompanhará para sempre suas vidas, mas as lembranças e ensinamentos eternizará o exemplo de mãe, esposa, amiga e mulher que ela foi na sua trajetória terrena. 
Sinceros pêsames.
Fortaleza, 14 de novembro de 2017.
Cristina Couto.
Presidente.


sábado, 11 de novembro de 2017

Dona Fideralina Augusto - Mito e Realidade - Discurso no ICC -Por Cristina Couto.




Há quase um século de sua morte, Dona Fideralina Augusto ressuscita o mito para tornar sua história uma realidade. Enterrada nas cinzas do tempo pelos vassalos do seu feudo, Lavras da Mangabeira, ela não sossegou e nem deixou o nosso arqueólogo lavrense, Dimas Macedo dormir em paz, foram longos trinta anos de investidas, aparições e noites mal dormidas.

Aos poucos e cuidadosamente, nosso historiador, foi catalogando documentos, gravando e apontando depoimentos, visitando parentes, visitando biblioteca e arquivos, além de solicitar a colaboração dos amigos.
Aos poucos surgiam documentos, retratos e informações que montando o quebra cabeça das muitas peças de sua longa e tumultuada existência, resultou nesta grande obra que hoje foi apresentada, aqui, pelo garimpeiro do Cariri, o nosso amigo, Heitor Feitosa.

Tenho a impressão que o vulto da velha matriarca rondava aqueles que na sua história se envolvia. Que o diga o nosso colaborador, João Tavares Calixto Júnior, que incansavelmente e gentilmente fornecia documentos relativos a essa empreitada. Do nada encontrávamos documentos que nas mãos do escritor Dimas Macedo transformava-se em informações preciosas, fechando as lacunas deixadas por historiadores anteriores que não alcançaram o mundo mágico da informação. Foi assim, com Joaryvar Macedo, o pioneiro, e com Raquel de Queiroz, a entusiasta. Eles foram os verdadeiros descobridores dos sete mares da história caririense, e voltaram suas atenções para a história de Lavras da Mangabeira. Raquel de Queiroz em uma frase exterioriza e eterniza sua afirmação, quando disse: tudo começou numa pequena e velha cidade do sul do Ceará: Lavras da Mangabeira.

Em 2009, seu bisneto Melquiades Pinto Paiva, baseado nas pesquisas de Joaryvar Macedo escreve um livro sobre a sua bisavó, intitulado: Dona Fideralina Augusto Lima – A Matriarca do Sertão, mas não foi ele a quem ela escolheu para ser seu escafandrista, o revelador da sua alma, e como uma boa estrategista que sempre foi permaneceu quieta, tranquila, inabalável, esperando o momento certo para atacar. E, sorrateiramente coloca seu plano em ação: atacou ao sossego de Dimas Macedo.

Foram muitos ataques, investidas, batalhas e resistência, finalmente, o nosso poeta se rendeu e acenou à bandeira branca, ele, através da sua caneta poderosa e certeira ressuscitou a fênix mitológica de Lavras. Agora, ela volta a reinar como sempre reinou. Sua vida foi vivida com pólvora, sangue e tragédia; e sua história foi escrita com a caneta, a sensibilidade e a genialidade do seu conterrâneo maior Dimas Macedo.

Aquela que um dia desfilou nas ruas de Lavras em sua liteira carregada por quatro fortes escravos, hoje desfila nas páginas e nas mentes dos seus admiradores que guardarão nas suas memórias a trajetória de vida dessa grande personalidade feminina. Mulher forte, valente e destemida que ressuscitou dos mortos e ficará para sempre na história.

Crato, 03 de novembro de 2017.


sábado, 7 de outubro de 2017

Dona Fideralina Augusto - Mito e Realidade - De Dimas Macedo - Por Cristina Couto


O efeito mágico que as águas do Rio Salgado têm feito na vida dos lavrenses sempre foi um verdadeiro prodígio. Seu poder de fertilização edificou na mente dos seus filhos a capacidade de poetizar e de buscar a fundo suas origens. 
Em Lavras da Mangabeira (CE) e na região do Cariri ninguém reinou tanto como Dona Fideralina Augusto Lima, mulher forte, que viveu à frente do seu tempo, numa época comandada pelos homens. Ela foi senhora da sua vontade e da vontade de muitos. Nada nem ninguém ousou desobedecer a essa velha matrona. Na sua terra natal, tudo parece que virou folclore, como nos contos mitológicos das grandes civilizações, especialmente porque aquele Município viveu todas as suas fases, tais como o nascimento, apogeu e declínio, nos permitindo, agora, uma volta ao seu passado glorioso.
 
Dimas Macedo é, hoje, o maior historiador lavrense. Com a sua memória fotográfica e o seu poder de percepção aguçada, capta as histórias perdidas e as informações escondidas. Sua sensibilidade de poeta e sua genialidade intelectual ultrapassam as fronteiras do tempo. 

Ao escrever Dona Fideralina Augusto - Mito e Realidade (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2017), Dimas faz justiça com as próprias mãos e com o brilho da sua palavra, contestando as muitas inverdades sobre a velha matrona lavrense. Neste livro, o autor busca resgatar a história como ela é, e não como as pessoas gostariam que ela fosse. 

Com a leitura deste livro, o que acabamos descobrindo é que a fênix lendária de Lavras da Mangabeira – Dona Fideralina Augusto Lima –, renasce das cinzas em que muitos dos seus opositores teimaram em enterrar a sua memória. Nele, Dona Fideralina Augusto ressurge magnífica, imperiosa e poderosa como sempre foi, e sua história, que outrora fora escrita com estilhaços de pólvora do seu bacamarte, agora acha-se reescrita com a caneta do seu admirador maior e arqueólogo da cultura lavrense, Dimas Macedo.


Cristina Couto

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

PREFÁCIO - Linda Lemos

A autora do livro “Olhando de Minha Janela”, Rosemary Amorim Gonçalves de Lemos, nascida no Rio de Janeiro, foi uma criança saudável, alegre e bonita. Jovem advogada, inteligente,  sabia cativar as pessoas. Estatura alta, postura elegante, vestia-se bem e sabia pisar ao chão com dignidade. Cabelos grandes, lisos, claros e bem hidratados, refletiam o vigor da juventude, confirmada na cor da pele levemente bronzeada.

Ao longo da vida, minha prima Rosemary recebeu amor dos pais, João Gonçalves de Lemos e Maria Ilza, irmãs, Ercília e Izabel, e muito carinho de todos os familiares.  À demonstração desse afeto  ela retribuia com o sorriso marcante e expressivo que trazia da terna infância. Olhos que riam carinhosamente  para a vida.  Rosemary nos deixa os 39 anos, quando o seu coração silencia num fim de tarde, 02 de fevereiro de 2009, em pleno carnaval.  E assim perdemos a alegria e beleza jovial,  a garota que sabia sorrir com os olhos.

Após "brigar" com Deus, por não conseguir assimilar a perda da filha, João Lemos consegue, finalmente, entender  que a sua estranheza com o mundo cotidiano é que ele é todo montado em cima da ilusão da “vida total”, plena. O mundo cotidiano que nós criamos é todo voltado para a vida como se ela não acabasse. A morte é disfuncional: quebra o encanto das mil e uma noites contemporâneas.  Após entender  que a morte é a certeza negada e o luto, o caminho para uma nova etapa de vida, o pai de Rosemary organiza os escritos da filha.  Ele já está construindo uma nova identidade, novas crenças, novos sonhos. E aqui está a prova. Esta linda obra, bela declaração de amor incondicional de um pai à sua filha. Se perder um filho é amputar a alma, arrisco dizer que João Lemos já compreende que “a vida e o amor não deixam de ser belos por serem finitos”.  E passa esta mensagem para muitas outras pessoas. Olhando da minha janela, vejo os escritos do coração de João Lemos.

Algumas coisas na vida são difíceis de entender. Uma interpretação e compreensão do mundo a sua volta nada mais é do que um ponto de vista, e portanto,  a vista de um ponto.  Oportuno, talvez, frisar o escritor Leonardo Boff, com quem Rosemary comungava idéias e ideais. Expoente da Teologia da Libertação e professor universitário em vários universidades do Brasil e do exterior, sua produção literária  é superior a 60 livros, um deles “O casamento entre o céu e a terra, publicado em 2001, composto de 30 contos indígenas e das principais contribuições deste povo à globalização. Contos simples, que falam do amor, do fogo, dos pássaros, da morte, da vitória-régia, da terra, do céu, das estrelas, da mandioca, do guaraná, do beija-flor e de tantos outros assuntos do dia a dia da gente simples.

O título da obra,  inspirada nos índios samis, da Suécia. Quando Leonardo Boff, em visita, ouve do cacique: “casar o céu com a terra significa manter junto, Deus e a natureza, o homem e a mulher, os velhos e os jovens, o trabalho e a diversão, a vida e a morte. É  combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade.”



O CEARÁ FORA DO MAPA-MUNDI DA EDUCAÇÃO - Linda Lemos



Li no Jornal Diário do Nordeste, Caderno 3, de 27 de dezembro de 2011, um rosário de inversões do que deveria ser um evento educacional - 110 Congresso Internacional de Educação sobre a Formação de Professores, 100 Congresso Nacional sobre Dificuldades de Aprendizagem e do Ensino, 20 Seminário de Gestão em Educação, 10 Congresso Internacional de Educação Profissional e Tecnológico do Ceará - sediado em Fortaleza. Ressente-se o conceituado Professor Universitário Batista de Lima, da ausência  de educadores cearenses na equipe de 22 estrelas, vindas de outras terras.


No nosso entendimento, a educação brasileira espelha a síntese dos acertos e desacertos de sua caminhada histórica. A história da educação no Brasil tem períodos muito curtos de avanços em detrimento dos longos períodos de retrocessos e/ou de estagnação. Vejamos alguns fatos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    
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Primeiramente, na época do Brasil Colônia, o modelo educativo dos jesuítas, Ratio Studiorum1,  baseado na cultura européia. Nascido da Contra-Reforma2, 1534, determinava que os livros postos ao alcance dos alunos se limitassem à suma teológica de São Tomás de Aquino e à obra filosófica de Aristóteles. Propunha um processo de ensino e aprendizagem baseado na repetição e memorização dos conteúdos estudados, com ênfase na concentração, atenção e silêncio dos alunos.

Em seguida, o Brasil Império,1882, concorre para mudar o cenário educacional, mas ainda permanece a lógica de dominação, desta feita  entre as oligarquias rurais e a emergente aristocracia urbana. Apesar dos esforços feitos, incluindo Rui Barbosa, se vê poucas mudanças efetivas. Permanece a supervalorização de métodos e técnicas estrangeiros e desvalorização do professor.

Com a Proclamação da República,1889, tem-se uma escola mais eficiente, porém, continua objetivando a seleção e formação das elites.  No geral o processo escolar e educacional continua insignificante. No início do século XX, a esperada revolução de 1930, seguida do golpe do estado novo, a redemocratização nacional, golpe de estado de 1964 e, por fim, a transição democrática, nos faz ver que o projeto social e educativo, historicamente dominante no Brasil, se mantém no poder, e dá continuidade à diretriz econômica de expansão do capitalismo. Sinceramente, pouco mudou no Brasil, em termos educacionais, desde a declaração de independência política de Portugal.

Conclui-se, portanto, que a escola sempre cumpriu um papel determinado a atender a classe dominante e continuará a fazê-lo, a não ser que o processo em que se está mergulhado seja revertido. A reflexão que faz o Professor Batista de Lima representa um passo nesta direção, quando recusa-se a aceitar a lógica educacional aí posta, e sonha com um lugar para o seu Ceará no mapa-mundi da educação. São muitos os desafios a serem superados, em especial, no que se refere à educação para todos, à formação docente, à construção de currículo, metodologias e avaliação adequados ao real desenvolvimento humano. Solidarizo-me, respeitosamente, com o Professor cearense.   
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1Ratio Studiorum: espécie de regimento da educação, composto de normas e estratégias pedagógicas da ordem jesuística. Durou de 1549 a 1759 (210 anos) quando os religiosos foram expulsos do Brasil no Governo do Marquês de Pombal.

2Contra-Reforma: conjunto de medidas instauradas na Igreja Católica Apostólica Romana, para enfrentar as críticas reformistas lideradas pelo monge alemão Martim Lutero, que escreveu teses denunciando os erros e abusos cometidos pela alta hierarquia da Igreja Católica e propondo profundas mudanças na sua estrutura, que culminou com uma nova religião cristã, o Luteranismo ou protestantismo.

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ENCONTRO DOS ESCRITORES FERNANDO PESSOA E DOSTOYEVSKY EM LAVRAS DA MANGABEIRA - Linda Lemos.



Aconteceu, em 21 de maio de 2011, a posse da escritora Cristina Couto e do teatrólogo Aury de Araújo Correia, conhecido pelo nome artístico de Aury Porto, na Academia Lavrense de Letras, ocupando as Cadeiras 36 e 37, respectivamente. Os pronunciamentos dos novéis acadêmicos, belos e muito contundentes, emocionaram todos os presentes.

Aury Porto trouxe para o evento um dos maiores escritores de todos os tempos, o português Fernando Pessoa. E o faz bonito. “Felicidade. Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário... Se achar que precisa voltar, volte!”  E eu voltei. Não sou poeta que “... finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”.

E depois o teatrólogo anunciou ao público: “Depois de conversa com uma pessoa que conheci ontem, Linda, reporto-me à obra O idiota, um dos mais notáveis romances do gênio russo, Dostoyevsky”Sua obra explora a psicologia humana num conturbado contexto político, social e espiritual da sociedade russa. Para os críticos, um dos maiores psicólogos da literatura mundial. E assim, chega um dos mais proeminentes escritores no século XIX, precursor do movimento filosófico existencialismo, para quem a guerra é a revolta do povo contra a idéia de que a razão orienta tudo. Fyodor Mikhaylovich Dostoyevsky  em Lavras da Mangabeira, sob a proteção de São Vicente Ferer, em noite de brisa amena, raridade sertaneja, distante do inverno russo que cobre de neve encantos, encontros e desencontros.

Por um segundo, Aury Porto e eu nos olhamos, em cumplicidade ideológica. Emocionada por tê-lo convencido a trazer tão ilustre convidado para nossa festa, em estado de êxtase pela percepção social da obra, não contive a emoção: após apresentação, corri para abraçá-lo, levando comigo afetuoso agradecimento, isto na terra onde nasceu meu pai, o médico e escritor Manoel Gonçalves de Lemos.

Compareceu também à festa o poeta Zito Lobo, com o seu livro Trovas e Poemas, declarando amor eterno à sua amada Eliete. O mensageiro desse amor, foi o seu filho, Dimas Macedo, celebridade literária contemporânea, neto do poeta de versos sociais Antônio Lobo de Macedo (Lobo Manso). Na Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, que acolheu o evento, o Príncipe dos Poetas Populares Lavrenses, José Teles da Silva  lembrou que estamos no século XXI. Vicente Paulo Lemos arrancou aplausos quando proclamou: “Em Lavras da Mangabeira/Lavram-se ricos cristais/Quem não é Padre é Doutor/Ou tem outros cabedais/Também o agricultor/Quando lavra é muito mais.”

Cristina Couto e Aury Porto receberam mensagens de boas vindas, enviadas pelo Presidente João Gonçalves de Lemos, através da Vice, Fátima Lemos, e pelas confreiras Rosa Firmo Bezerra e Lucia Macedo Maciel. A novel acadêmica discursou, comungando sentimentos com quem parte para um exílio na  Sibéria, em noite de natal, experiência que rendeu a Dostoievski a regeneração das suas convicções. Reveladora da angustia mental e dilema vividos no mundo atual, Cristina Couto fez questionamentos éticos sobre a liberdade, o livre arbítrio e o determinismo. Retratação filosófica do que acredita a sua consciência.

Sobre o amor de Cristo falou Dimas Macedo, fruto de sua capacidade criadora. O acadêmico Jeová Batista Moura, o radialista Paulo Sérgio Carvalho e tantos outros também ficaram expostos à emoções complexas, beirando os limites da razão e da lógica.

É FANTÁSTICO O SHOW DA VIDA - Linda Lemos.

Plagiando o nome do programa semanal da Rede Globo de Televisão, homenageamos um show de atitudes de pessoas fantásticas! As significantes mudanças que ocorrem em nossas vidas, muitas vezes marcadas por perdas, não raro seguem-se possibilidades de  compensações. A substituição da cor vibrante dos cabelos pelos tons acinzentados, dentes fortes e alvos cedem lugar às próteses, rigidez muscular, tenacidade e maciez da pele se vão com a diminuição da capacidade visual, auditiva, porém, faltas compensadas pelas possibilidades de crescimento: ver o mundo sob nova perspectiva, olhar pensado, rico em sabedoria, não raro marcado por sentimentos de humildade, tolerância e serenidade. Quem sabe, iluminado por aquele de quem nos aproximamos com o passar do tempo, avançar da idade.    

Um momento muito especial de minha vida - assistir atos que eu denomino “show da vida”. O exemplo do Professor Francisco Dias da Silva (Ivonildo), idealizador da Sala de Leitura José Cândido Dias, grande biblioteca,  aniversário de 15 anos, em 16 de julho de 2010. Ele deu ao povo da sua terra, a pequenina São José, um tesouro: dez mil livros.  A vila reconhece o grande feito do conterrâneo, filho de Candinho da Barra e Didia, esposo da dedicada Luizinha Alencar. Com ajuda de uma equipe composta por familiares e voluntários, a oportunidade de crescimento e acesso a cultura se expande também para a vizinhança, os municípios: Lavras da Mangabeira, Cedro e Várzea Alegre, assim gerando inúmeras possibilidades, que só um sábio visionário é capaz de ousar. Seu exemplo é digno de respeito e admiração.

Para abrilhantar a festa de uma debutante tão especial, um evento extraordinário – o lançamento do “Projeto Expressão Literária, idealizado pelo acadêmico advogado João Gonçalves de Lemos, com a colaboração das acadêmicas Professora Fátima Lemos e Psicóloga Linda Lemos. O referido Projeto é uma ação cultural de estímulo à produção literária e à leitura de autores naturais dos municípios Cedro, Lavras da Mangabeira e Várzea Alegre, e/ou que neles tenham vínculos cívicos e familiares. João Gonçalves de Lemos semeia cultura deixando rastros profundos nas terras que lhe viram nascer e crescer. 
   
Também fantástico o exemplo que nos dá Francisco Lima Freitas, o Presidente da Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará- ALMECE, um semeador de cultura, para usar um termo da respeitada acadêmica Francinete Azevedo, representante de Ipú naquela Arcádia. Liderando a entidade há 16 anos é digno de reconhecimento e aplausos. No vigor dos seus 83 anos, respeitosamente sacode a juventude, dando exemplo de amor à cultura.  Diz ele: “Sou um homem de tendência reconhecidamente socialista. Um admirador dos saudosos juristas: João Mangabeira e Hermes Lima. Na poesia, louvo os nomes de Camões, Dante, Pablo Neruda, Castro Alves, Casimiro de Abreu e Carlos Drummond de Andrade, e igualmente na prosa: José de Alencar, Antônio Calado e Rachel de Queiroz. Na Oratória: Cícero, Demóstenes, Mirabeau e Maurício de Lacerda, no Ceará – Maurício Cabral Benevides....”. Ao Retor Padrão Lima Freitas, título concedido pela Academia Cearense de Retórica, nossa mais sincera admiração.

Não menos importante é a Professora Maria Ester de Lemos, na Vila de São José, distrito de Lavras da Mangabeira, que também semeia educação e cultura. Através do Colégio que leva seu nome, localizado em Fortaleza, com aproximadamente três mil alunos, ela muito contribui para um mundo melhor. Também semeando amor, sua grandeza vai além. Octogenária de riso solto, cabelos esbranquiçados teimando em lhe ocupar uma mente privilegiada, acolhe, no seio de sua família, Luisa Maura, carinhosamente chamada Cateca. Nossa prima não responde com precisão sua idade, de onde veio e para onde vai. Na residência do casal Sebastião Pereira de Sousa (Sebasto) e Maria Ester de Lemos  encontrou o carinho dos primos: Maria de Fátima Lemos, Maria da Penha, Paula Maria, Joana Áurea, Pedro, Raimundo Renato, Joaquim Pereira Neto e Luís Pereira Lemos, que com certeza orgulham-se do exemplo dos pais. Todo o respeito a esta família é pouco, diante da grandeza de sua atitude, o acolhimento, demonstração de amor ao próximo. Só uma família tolerante, desprendida e iluminada daria este fantástico show na vida. 
  

Dois Homens, Dois Amores, Dois Poetas - Por Linda Lemos

Zito Lobo




 Dois homens que deixaram rastros por onde passaram. Suas histórias se confundem e são dignas de serem lembradas. Se ninguém vale pelo que sabe, mas pelo que faz com aquilo que sabe, eles são exemplos. Amantes de suas raízes cearenses, nasceram na velha Princesa do Salgado, nas terras banhadas pelas águas que correm para o Boqueirão, abraçadas com as águas do Riacho do Machado. O Sítio Calabaço foi o primeiro abrigo de José Zito de Macedo (Zito Lobo), que nasceu aos 29 de novembro de 1922, e do seu filho Dimas Macedo, que veio três décadas depois, aos 14 de setembro de 1956.

         Os dois identificam-se fortemente com a vida no campo. Tranquilos, serenos, sem ambição e destemidos. Seus valores, os compreendem os conhecedores das leis do sertão: respeito à natureza, justiça social, dignidade e muito trabalho.

Zito Lobo foi testemunho de amor, carinho, dedicação pelo povo, pelas lideranças de pastorais e movimentos por ele organizados, firmes e radicados na palavra e na fé em Deus. Ostenta trajetória de vida com participação e desejo de realização do social. Em Lavras, torna-se um dos fundadores do Círculo Operário dos Trabalhadores Cristãos, de cujo núcleo regional foi Presidente. Foi um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, sendo um dos instituidores, na gestão em que foi Tesoureiro de referido Sindicato, da Cooperativa dos Trabalhadores Rurais de Lavras da Mangabeira, que igualmente dirigiu, ostentando sempre sua liderança carismática.

            O zelo pela família está estampado na simplicidade da expressão gestual discreta e cativante, de característica marcadamente paternal e afetiva, “modelo de pai e de amigo, e de esposo fiel e generoso, sendo esteio de amparo e proteção para toda a família”. Zito Lobo e Dimas Macedo, dois amores, queridos pelos amigos. Duas vidas dedicadas à família. Não há divisão entre eles quanto ao amor dedicado a familiares e amigos.

           Quando se refere à literatura, Dimas Macedo declara sobre o poeta Zito Lobo: “Mesmo acompanhando de perto, durante algum tempo, a sua dedicação à vida literária, jamais me acorreu a ideia de que, no final dos seus dias, a sua criação viesse a assumir tamanha gravidade, e de que o seu espólio de poeta estivesse praticamente pronto para o prelo”.
             “Sabia ele, no entanto, do significado e do valor que permeavam a tessitura dos seus versos, e sabia, mais do que isso, que eu jamais me furtaria ao compromisso que um dia lhe fizera de publicar uma seleção dos seus poemas”.

            “Dessa circunstância é que nasceu a edição de Trovas e Poemas (Fortaleza, Editora Oficina, 1990; 2ª edição: Fortaleza, Edições Poetaria, 2011), volume no qual decidi reunir, de forma rigorosa, os seus poemas produzidos após a morte da minha mãe, Maria Eliete de Macedo, aos 10 de outubro de 1975”.  

               “Da emoção e do enlevo que sempre costuraram as suas atitudes, ele não se furtou de falar ao silêncio da sua escritura literária, tecendo trovas, poemas e sonetos temperados pela coloração das lembranças e das recordações; e poemas que despertaram a atenção de escritores do porte de Joaryvar Macedo (de quem era irmão unilateral) e José Alcides Pinto, que escreveram, efusivamente, sobre a sua obra literária”. Descendente dos desbravadores que construíram a civilização do Cariri, filho de Maria de Aquino Macedo e de Antônio Lobo de Macedo (Lobo Manso), uma das legendas da poesia popular do Ceará, José Zito de Macedo (Zito Lobo) é hoje nome de Rua em Fortaleza e em sua cidade natal, num reconhecimento aos seus melhores atributos.
          
              Ressalte-se que, quando se trata de literatura, Dimas Macedo torna-se grande. Iniciou os estudos em sua terra natal, até chegar a Fortaleza, onde bacharelou-se em Direito, no ano de 1981. Exerceu, na juventude, as funções de jornalista, optando, posteriormente, pela carreira de escritor e de jurista. É crítico literário, poeta, ensaísta e historiador, Professor da Universidade Federal do Ceará,  membro das Academias Cearense, Lavrense, Letras e Artes do Nordeste. Dimas é um dos escritores cearenses de maior produção literária.

Se é para falar de poesia, não se pode negar evidências. Os dois poetas se confundem em suas ideias. Semelhanças essenciais entre sensibilidade e inteligência aproximam Zito Lobo e Dimas Macedo. Eles fazem lembrar Fernando Pessoa e Luís de Camões, naquilo que se refere à consciência do valor da poesia. É comum a Pessoa e a Camões a afirmação do valor supremo da poesia. Camões sabe que só o canto dos poetas transforma os homens em seres imortais (só o poeta nos liberta da Lei do Esquecimento). Pessoa sabe que só a criação de mitos (tarefa do poeta) assegura a vitalidade da Pátria, porque a poesia é o Império vivo. E nesse sentido, Lavras da Mangabeira e Portugal se confundem quando falamos de poesia.

           Zito Lobo transferiu-se para Fortaleza em 1975, fixou residência no Bairro da Piedade, onde se tornou figura popular. Com sua religiosidade em evidência, atuou como Cooperador Salesiano junto à Paróquia da Piedade, ali integrando a Associação do Sagrado Coração e a Associação de Nossa Senhora Auxiliadora, desempenhando funções de direção junto à Associação dos Merceeiros do Ceará e ao Círculo Operário dos Trabalhadores Cristãos – núcleo regional do Bairro da Piedade.

            A religiosidade e o misticismo são características marcantes, comprovadas no amor que pai e filho devotam ao Criador. “Sou um homem fascinado por Deus e vocacionado para Deus. Não tenho receio algum em proclamar o meu amor a Deus e viver a minha vida para Deus. A minha primeira essência é a mística. A poesia vem em segundo. E a filosofia em terceiro. Mas a literatura é o linho e a linha que me foram dados para interpretar o mundo e para viver no limite de todas as coisas”, registra Dimas Macedo. Ambos conseguem realizar, sem necessariamente fazer parte do grupo dos "mestres da suspeita", alvo de intensa crítica nos seus ideais, nas suas esperanças e nas suas grandes realizações históricas.

             Na língua portuguesa, pai, proveniente do latim pater, também interpretado como pátre, patris, possui vínculos com a palavra padre, tendo ramos e origens semelhantes, a partir do costume de se chamar o clérigo de pai. Comumente, o termo patre assume um cunho religioso, proveniente da igreja cristã e da judaica, sendo um dos epítetos de Deus. Também é a primeira pessoa da Santíssima Trindade, paixão desmedida entre pai e filho.

               Felizes, cheios de planos, ideais, sonhos, pai e filho caminham em direção à felicidade, à esperança e à alegria que fazem parte dos sentimentos multiplicados. Juntos, felizes e cheios de vida. Um só coração. Uma só alma. Um dia, o primeiro deles resolveu pegar um atalho e, no atalho, a vida nunca mais foi a mesma. Algo se quebrou no tempo e a esperança se foi, permanecendo apenas o amor que não se cansa da solidão entre duas vidas.


          Todos os anos, em pelo menos treze países, é celebrado o Dia dos Pais. A comemoração teve origem nos Estados Unidos, em 1910, e partiu da ideia de Sonora Louise Smart Dodd. A data foi oficializada pelo presidente Richard Nixon, em 1972, como sendo no terceiro domingo de junho. A data, porém, varia de país para país, tendo a maioria adotado o mês de junho. No Brasil, o mês é agosto. Dimas escolheu os noventa anos de Zito para celebrar o dia dos pais, o dia do pai venerado, falecido em Fortaleza, aos 24 de março de 1987.