sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

HÁ UMA FOME PELO AR - Emerson Monteiro


Há, sim, uma fome de coerência, que circula as cabeças das pessoas em voos insistentes, algo parecido com zumbidos de muriçocas aborrecidas nas noites de calor pegajoso e insônia agressiva. Uma fome de honestidade, que penetra a condição social desses períodos neutros, quando a história funciona aos moldes do faz-de-conta, apenas para justificar o melhor dos mundos possíveis. Uma fome que reclama práticas dignas de políticas públicas, representatividades justas e transparência no funcionamento das engrenagens e dos comandos. Há, sim, uma fome de autenticidade nas criações artísticas, na música, do trato da beleza dos entretenimentos em geral. Nas oportunidades de trabalho aos pais de família, independente de propagandas e números oficiais. Da paz comum, onde todos respeitem os direitos uns dos outros. Uma fome de evolução da espécie humana, em que haja menos motivos de agressividade e desespero. Um ânimo de satisfação pessoal independente de tirar o que é dos outros e olhar mais dentro de si próprio, para notar o quanto de potencial cada indivíduo possui, no crescimento das mentalidades.
Em que um ser humano acredite na palavra do outro ser humano, sem avaliar os riscos dessa atitude, sem esperar surpresas desagradáveis ou agendas secretas, livre dos medos adicionais desses tempos escuros. Em que a velocidade dos carros corresponda às voltas para casa com segurança e tranquilidade. Uma fome de paz nas ruas e nos corações das gentes, cientes de que a justiça coletiva preenche os requisitos necessários dos valores básicos a se viver com êxito e harmonia. Inovações de transformações salutares que saiam do papel e cheguem aos lares da esperança e da felicidade, quando aconteça o domínio dos baixos instintos e deságuem nos bons sentimentos. Novas modificações que guardem sentido em termos proporcionais ao direito mínimo das condições de sobrevivência, vencidas para sempre os conflitos das guerras de classes e privilégios de grupos.
Uma fome do tamanho das manhãs que logo viram tardes e noites, repetida nas manhãs seguintes, qual condenação de um Prometeu acorrentado, a empurrar pedra imensa na ladeira do destino, que depois recomeçará do início, faina constante e infinita. Essa fome das eras proporcionais ao desejo da perfeição nos padrões da cidadania, quando o sonho seja do irmão amar o irmão, fora das questões insignificantes do passado e das coisas que passam. Fome de saúde nos leitos dos hospitais, nos manicômios e penitenciárias. De épocas e circunstâncias que chegam à imaginação, porém ainda não chegaram à realidade que demonstra força em relação à teimosia dos confrontos. Quando a fé dominará as contradições e os tantos setores das circunstâncias, que signifique possibilidades em termos de realização pessoal através dos talentos e das vocações. Onde tudo de bom estabeleça suas bases definitivas no seio de nossa humanidade. Há, sim, essa fome pelo ar, clamor enorme dos dias e das aspirações de uma raça que padece, mas que já visualiza espaço amplo nos estreitos limites dessa fome que lhe corrói as entranhas à procura da Luz da liberação.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

ILUSÕES DE UM CACHORRO - Emerson Monteiro

Indagado qual a razão de o cachorro ser o melhor amigo do homem, com propriedade um sábio respondeu: - Porque ainda não conhece o dinheiro. Ah! Os bens materiais, quantas cogitações equivocadas podem ocasionar no bloco das vaidades humanas. Tal vê, também, os comportamentos animais, acho que nas fases de preparação de outras vivências da natureza. Sei não, pois há tantos mistérios a desvendar, da terra ao céu, que causa ânsias e vertigem.
O cachorro da minha casa, por exemplo, este apresenta manias bem típicas dos bichos da espécie, com o agravante das arrogâncias dos cachorros de raça, valentões, pretensiosos, dos que olham de cima as pessoas. Sempre que abro a porta para sair na varanda, ali está ele, o verdadeiro dono do pedaço. A segunda coisa que faz depois de balançar o toco do rabo, trazido assim mutilado, segundo explicaram, para manter o padrão da raça, a segunda coisa, mostrar a língua e lamber o focinho, tomando gosto, qual abríssemos a porta toda vez só para lhe levar alimento.
Acha-se o dono absoluto de toda a extensão territorial da casa e do muro que a cerca. Mija por todo canto, costume estudado pelos especialistas caninos que adotam para demarcar o espaço das suas pertenças. Nesse ponto, mora o título deste comentário, o motivo das ilusões dos cachorros, por pensarem possuir o mundo inteiro onde mijam descaradamente. Caso consiga escapar até a rua, sai mijando tudo que aparece à frente, semelhante ao que providencia cada vez que chego com o carro, renovando mijadas nos pneus, parachoques, lataria, reforçando o instinto que alimenta de proprietário exclusivo do transporte que adquirimos com relativa dificuldade. Ele nem de longe imagina o que de antipatia isso acarreta no dono, essa pretensão de garantir só para si um direito que corresponde à família inteira.
Os passarinhos que pastam pelas imediações em volta da casa, a seu modo, sofrem na pele essa inclinação possessiva do cão alienado em constante vigilância. Corre e late desesperado quando sanhaços, sabiás, anuns, garrinchas, griguilins, pardais, vinvins, lavandeiras, aventuram catar insetos e sementes no chão. Vez em quando aparece pássaro morto na varanda, prática parecida com a dos humanos, únicos animais que matam e abandonam a vítima. Os outros assassinam apenas no propósito da sobrevivência.
As ilusões do cachorro chegam ao domínio de causar mais constrangimento aos seus donos. Caso saia a telefonar na varanda, quem aparece, ele, atento na escuta de toda a conversar, quebrando qualquer sigilo, semelhante aos agentes secretos deste mundo. Até hoje, porém, não descobrir de como se beneficia da escuta privilegiada.
Sua agressividade patrimonial, no entanto, restringe as visitas que de raro recebemos, seleção prévia que ele mesmo estabelece. Resultado, alguém bate no portão e eu corro apressado a prender dito chefe provincial, o que deixa a impressão do tanto de analogia dos bichos com os humanos, tão cheios de ilusões de honras e posses, durante a curta jornada desta vida, surpreendidos, inevitáveis, nas folhas que, secas, voam dos calendários.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

PELAS FIBRAS DA ALMA - Emerson Monteiro

Essas tardes cinzentas que emolduram o tempo chuvoso mexem com a gente. Mexem por dentro da gente feitas brocas revirando as entranhas onde transitam escondidos pensamentos de querer ver coisas diferentes acontecerem invés de algumas outras que sacudiram os derradeiros dias, na semana anterior. Entortar os acontecimentos, eis o tal desejo principal desses bichos vivos mexendo por dentro, a querer dominar a natureza, uma espécie de coisa animada impacientando as outras coisas vivas que moram nas entranhas da pessoa. Ondas de coisas vivas invisíveis, imateriais até, digamos assim, sem ter medo de errar, são o que, por que quiséssemos dominar os momentos fugitivos, a gente, parece perseguir, como quem corre atrás de sombras, e não consegue agarrar, que vai embora na correnteza barrenta; e o velho costume de procurar fantasmas apressados nas lamas escorregadias do passado; ou mesmo estirar o pescoço, pretendendo enxergar lá adiante, depois da linha do horizonte; longe; muito longe para obter o menor sucesso. Isto é, esquecer o momento especial do presente, único ser acontecimento que, na verdade, tem valor, nos interessaria com certeza, perante todas as demais frioleiras deste mundo de passados mortos e futuros ainda de vez, na semente.
Caso haja boa vontade para concentrar esforços no presente, acham-se todos os demais fatores que empurram a manada para o curral, nas jornadas individuais ou coletivas dos rebanhos. Ninguém permanece no passado, nem pisará o futuro por conta própria antes da hora. O minuto seguinte já ficou atrás quando virou presente. Essas intenções desesperadas dos ledores da sorte habitam só as casas de jogos, nas travessas da ilusão. Quem, não fossem os filmes, garantirá, um instante depois, o placar final do jogo, deixando de lado o polvo alemão da Copa do Mundo. Quem garantirá com a absoluta segurança isso de depois?
Apertar o cinto do agora, no entanto, qualquer cidadão pode, fora de cair da cama ou botar burros na água. Reger a valsa do instante torna-se, pois, a profissão universal do senso do realismo, nas empresas produtivas.
Diga-se bem isso tudo, quando perguntarem pelo pai da criança em face das tragédias da história. Alguém houvesse de sair na dianteira e as coisas mostrariam outra cara. Pisar maneiro, ordenhar as vacas na hora certa; fechar as portas e janelas antes do pior acontecer; saber escolher as opções ideais; bater na bola da vez; substituir peças e cuidar da revisão no prazo; essas ações inevitáveis aos bons resultados servem de aviso, nos casos posteriores.
Aprender, por isso, as lições, às vezes de preços elevados, porém ainda com os pés no caminho e no tempo do presente, oferece os braços aos estudantes atenciosos. Dias melhores virão, no suor da reconstrução. E a casa pertencerá sempre aos que souberem dela utilizar as oportunidades da milenar sabedoria.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

NOTA DE FALECIMENTO

Com pesar, a Academia Lavrense de Letras – ALL comunica o falecimento de Argentina Gomes de Morais, aos 97 anos, nossa confreira ocupante da Cadeira nº 30. O corpo está sendo velado na Funerária Ternura (Rua Padre Valdevino, 2255) e o sepultamento acontecerá neste sábado (05 de Fev), às 16 horas em Lavras da Mangabeira (sua terra natal).


O presidente da ALL, João Gonçalves de Lemos, envia suas condolências à família enlutada.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A ESTRUTURA FAMILIAR - Emerson Monteiro

Os seres humanos reclamam cuidados imensos quando chegam ao mundo e superam os demais seres no esforço inicial de formação e sobrevivência, até dispor dos meios necessários a seguir com as próprias pernas a jornada de habitar este mundo. Antes dos sete anos, os filhos do bicho gente exigem, dos pais e da sociedade, extremos arranjos, a ponto de depender, em caráter quase absoluto, dos outros para limpeza, alimentação, vacinas, alojamento, vestimenta, primeiros passos, fala, pensamentos, repouso, formação moral, intelectual, etc.
Esse grau de dependência da nossa raça representa o empenho da família em dirigir suas baterias na sobrevivência e no zelo dos filhos, salvaguarda e herança cultural da sociedade. Ninguém foge dos valores trazidos pela família e que lá adiante não venha a defrontar dificuldades e traumas de adaptação perante o desconhecido, nas dobras do caminho.
Por isso, os sábios dão importância inestimável à saúde dos laços familiares, para considerar a célula doméstica a mãe das comunidades e resposta aos desafios de todo tempo. Desorganizada a família, as outras instituições perdem o prumo e a paz perde a razão. Os abalos nesta fonte original implicam nos desmanches que a história registra, no caos das guerras medonhas verificadas em turnos diversos, custando preço astronômico de sofrimento, desespero e trabalho.
A bandeirada desses primeiros passos humanos, dada pelos pais já na infância, reserva sobremodo a esperança possível dos adultos e das suas circunstâncias posteriores, vindas desde a escola filial, nos sentimentos, lembranças e emoções que lhe marcam o modelo de personalidade depois vivenciado no decorrer das gerações.
Conhecimento de padrões fundamentais vindos no começo apresenta frutos na humanidade, o que demonstra as ameaças constantes de que é vítima a família, nesse jogo de dor e prazer da sua experiência. O mal e o bem, que organizam os porões e a bagagem, nessa viagem de seres humanos, na sombra e na luz das situações, trabalham os tais valores de formação das pessoas em movimento, nos grupos sociais.
Tiradas, pois, essas e algumas conclusões mais, a razão do abalo nos países vem do descaso para com os atores do drama ainda na gravação dos letreiros iniciais das consciências, no berço de vilões e mocinhos junto dos responsáveis pela sua formação. Nisso, entra em cena a família para constituir cidadãos com a mesma face dos tempos sonhados e vividos que irão acontecer logo ali adiante, num futuro imediato.

domingo, 30 de janeiro de 2011

BRUNO PEDROSA SERÁ HOMENAGEADO

O artista plástico Bruno Pedrosa estar em terras cearenses. Com a agenda cheia de compromissos e homenagens o lavrense não terá descanso. No dia 02 de fevereiro na Câmara Municipal do Crato, receberá o Título de Cidadão Cratense e na mesma ocasião será homenageado pelo Instituto Cultural Caririense.  O conterrâneo, acadêmico e vice-residente, Émerson Monteiro será o anfitrião da entidade. À partir do dia 03, em Fortaleza, ele fará uma exposição na Galeria Inês Fiúsa em parceria com a UFC. Finalmente, no dia 04 a Academia Lavense de Letras receberá o ilustre membro numa recepão no Ideal Clube, às 19 horas com a presença dos acadêmcos e dos amigos de Bruno.

DOIS DIAS DEPOIS - Emerson Monteiro


No jornalismo, notícias são acontecimentos de interesse público divulgados pelos meios de comunicação de massa, e existem formas de avaliar a importância das notícias conforme a sua relevância. Uma dessas formas é a proximidade. Entre duas notícias, uma sempre melhor atende a esse requisito de tocar mais de perto a comunidade.
Enquanto avistávamos, no Cariri, as catástrofes climáticas ocorridas em cidades do Rio de Janeiro, as notícias guardavam proporção considerável, porém representavam marcas noutras populações afastadas geograficamente falando. Agora, contudo, diante da cheia desproporcional do Rio Grangeiro, a força das águas nos mostrou outras dimensões, em face da ligação imediata do acontecimento.
Esta madrugada, dois dias depois, circulando nalgumas avenidas que margeiam o Canal e ruas circunvizinhas ainda em fase de arrumação, avaliei de perto a dimensão do fenômeno meteorológico que confrangeu toda a cidade de Crato na madrugada do dia 28 de janeiro de 2011.
A imagem principal da cena deixa às claras o risco constante que representa, a curtos e longos prazos, viver exposto à imprevisibilidade natural de possibilidades antes anunciadas. Longe dos brados alarmistas ou lendários, domar rio de tamanha impetuosidade torna-se, de hoje adiante, o fator determinante das administrações, independente do que passou, perante as transformações causadas pela ação do homem nas encostas da serra nestes dois séculos de aproximação.
Olhar o assunto de frente, encontrar a solução de engenharia que ultrapasse apenas os sintomas e siga direto à base do problema, sem contemporizar, porquanto a tensão persistirá em graus adiantados durante as fases invernosas do futuro. Interessa, pois, a todos, superar os limites desta herança histórica da localização do núcleo urbano que tanto admiramos e queremos.
Somar a potencialidade dos cidadãos e reconstruir as esperanças da tranquilidade sob outros prismas, na vontade política de uma gente trabalhadora e pacífica, civilizada, respeitada na história e dotada de cultura, cheia de boa vontade e amor pela terra em que vivemos nossas vidas. Despertar as novas energias da autoestima para preservar a natureza em volta com equilíbrio e inteligência.
Existirá, com certeza, solução adequada e coerente, desde que se saiba encaminhar estudos e as providências certas.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

TROMBA D´ÁGUA EM CRATO - Emerson Monteiro


Após manhã e tarde de sol intenso, a noite de 27 de janeiro de 2011 também se mostrou de tempo aberto e estrelas no céu. É tanto que, às 20h15, estávamos, Igor e eu, nas arquibancadas do Estádio Mirandão assistindo à partida de futebol entre o Crato e o Ceará, pelo Campeonato Cearense. Durante o jogo, no entanto, abriam alguns relâmpagos baixos para os lados do Nascente e do Norte. Ao final, o time cratense saia derrotado pelo placar mínimo.
Recolhera-me às 22h20, observando a preparação de chuva nos sinais do vento e nos relâmpagos por cima da serra, para as bandas de Pernambuco, donde, conforme minhas experiências pessoais de poucos anos, vêm ao vale chuvas de mais intensidade.
Assim, durante a madrugada desse dia 28 de janeiro, acordaria por cinco vezes, considerando relâmpagos e trovões em larga quantidade, mantidos na pancada constante de fortes precipitações, qual ainda não se deu na presente quadra invernosa.
Choveu a madrugada inteira, chuva grossa e persistente. Algumas vezes cortou a corrente elétrica, o que de comum acontece nas situações de muitos raios.
Pela manhã, ao sair para levar as meninas ao colégio, apenas neblinava pouco, no entanto o chão encharcado transparecia o quanto chovera além da conta na madrugada.
Pelos estragos que encontraríamos no percurso da descida, imaginamos as consequências logo em seguida presenciadas às margens do canal do Rio Grangeiro, dentro da cidade.
De máquina em punho, sai fotografando desde a ponte da Integração, próxima à igreja de Nossa Senhora da Conceição, até o término do Canal, imediações do Presídio, num rastro de destruição que jamais verificara nesses 50 anos.
Postes arrancados pelo tronco, carros arrastados na correnteza e jogados contra muros e calçadas, casas invadidas, asfalto eliminado ou levantado, portões de ferro arrombados, prédios em ruínas, móveis encharcados, pontes de ferro destroçadas, pontes de cimento e ferro abaladas nas estruturas, ou com varandas zeradas e substituídas de entulhos, árvores inteiras trazidas na força das águas, e, à medida que desci com lama nos tornozelos, num exercício de equilíbrio e paciência, após a Prefeitura, entrei na Rua Monsenhor Esmeraldo, onde funcionam armazéns de estivas e cereais e outras casas de comércio, testemunhando sempre os danos provocados pela violenta enchente. Houve comércios que registraram por volta de um metro e meio d´água dentro dos estabelecimentos a dezenas de metros do rio. Devido aos riscos da cheia no interior do Presídio, os detentos foram deslocados para Juazeiro do Norte.
A intensidade das chuvas da madrugada chegou a 163mm no centro de Crato, porém escoaram pelo Rio Grangeiro inclusive as chuvas das encostas da Serra, onde estimam-se maiores as precipitações, acima de 200mm, isto para um curto tempo de quatro horas, na ação do fenômeno atípico.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O ESPELHO DESTE MUNDO - Emerson Monteiro


Quem quer saber o que seja o mundo, olhe lá dentro de si e verá apenas o reflexo do que queremos para as ações diárias. Ninguém espere resultado diferente do que aquilo que produz. Por isto, nada de esperar seriedade na política sem participar do processo político na altura certa das oportunidades oferecidas todo tempo através das democracias.
Postular segurança pública e correr léguas do convívio da própria comunidade em que vive demonstra contradição. Reclamar da sorte refugiado por trás de muralhas invioláveis, enquanto drogas e armas correm soltas nas madrugadas, destoa do dever. Falar em união de todos e eximir-se do mínimo em aproximação com os demais do grupo social, animais solitários, engana a si quem age desse modo.
A realidade possui a nossa cara, a minha, a sua, o DNA coletivo. Nada muda se a pessoa não mudar, dizem doutrinadores, todo tempo, porquanto assim é se nos parece. Seja a mudança que quer para o mundo, afirmava com autoridade o líder indiano Mahatma Gandhi, revolucionário de uma nação que acreditou nos ensinos de paz da sua mensagem e reverteu séculos de colonialismo.
Quantas e tantas vezes reclamamos coerência e honestidade dos nossos representantes, e, durante os turnos eleitorais, agimos qual eles agirão depois que os elegemos, bolsos cheios dos cheques em branco dos nossos votos. Nem tudo só desespera, nesses tempos distorcidos que pedem luzes. Há provas incontestes de amor ao bem público nas providências dos responsáveis sérios que ainda existem nos postos-chave, desde que os levemos até esses lugares da mais importante valia. Diz a sabedoria popular que quando virmos um jabuti em cima de uma estaca de certeza alguém o botou na posição, porquanto jabuti não sobe estaca. Quando um político preenche o mandato significa que os cidadãos o levaram ao lugar.
Filtro dessas representações políticas são os eleitores. Caso reclamemos dos mandatários, eles mostram a cara da sociedade, a nossa cara, também. Esta a equação mais simples do que acontece desde que o homem é homem, na história.
Por isso, perante a república em que vivemos, nós e nossas famílias, as mudanças principiam no dia das eleições, ao preço do suor das pessoas que sofrem; dos inocentes que padecem fome; das mães que vendem filhos; crianças que se prostituem pela ausência do respeito das orientações corretas; jovens desencantados e marginais; ruas esburacadas, sujas, abandonadas; padrões conturbados de horas críticas e contradições, e erros sem alternativas; desmandos e servidão.
Receita simples esta, a quem queira rever os equívocos acumulados: Abra os olhos e veja no espelho da consciência; interprete os meios conquistados nas existências; limpe o espelho dentro de si e trabalhe para descobrir e reavivar as esperanças perdidas pelos que esqueceram das chances de melhorar este mundo.

domingo, 23 de janeiro de 2011

HUBERTO CABRAL - Emerson Monteiro


Desde que me entendo de gente que, atento, observo a participação constante de Huberto Cabral nas movimentações sociais, culturais e patrióticas do Crato. Possuidor de um civismo a toda prova, Cabral faz do rádio sua praia de predileção, sem, no entanto, esquecer permanências pelos jornais, revistas, livros, cerimônias coletivas, etc. Organiza com maestria eventos públicos, dentro da absoluta correção. Incentiva e participa de reuniões destinadas aos interesses da municipalidade, em todos os âmbitos possíveis e imagináveis, sempre visando ampliação dos recursos progressistas e abertura das vias de transformação comunitária. Presta homenagens a personalidades destacadas do lugar e evidencia datas memoráveis deste núcleo urbano. Recebe visitantes ilustres, orienta pesquisas de estudiosos, repassa informações do seu rico acervo e de suas vivências; enfim, um homem talhado a preservar valores históricos e a memória social do Crato e de todo o Cariri como raros outros. Alimenta um acervo de gama incalculável no que tange aos dados relativos a esta parte de mundo e é considerado por muitos um testemunho vivo dos acontecimentos principais caririenses desde o início da segunda metade do século que passou.
Nas minhas primeiras incursões a eventos públicos, recém chegado ao Crato, avistava a presença de Huberto Cabral, o que se seguiu todo tempo até hoje. Radialista emérito, lançado ainda nos primórdios da radiofonia caririense, nas primitivas amplificadoras, associa-se à evolução desse meio de comunicação, exercendo funções de liderança em programas esportivos, noticiosos, reportagens inolvidáveis e solenidades importantes para o desenvolvimento econômico regional. Assessor do Executivo cratense em repetidas administrações, vem, à frente da sua época, convocando os cidadãos a segui-lo na altiva caminhada que exercita como rotina de existência. Nas campanhas fundamentais para a construção do Cariri nos moldes contemporâneos, ali está Huberto Cabral; desde a vinda triunfal da energia de Paulo Afonso à instalação definitiva da Universidade Regional do Cariri, por exemplo. Lembro das suas participações nas transmissões radiofônicas dos jogos do antigo campo do Sport, através da Rádio Educadora; depois, na quadra Bicentenário, em noites esportivas magnânimas; vejo suas ações audaciosas e vanguardeiras na cobertura jornalística da visita do presidente Castelo Branco, aos idos de 1964; sua determinação para, juntos, continuarmos a publicação do jornal A Ação, também na década de 60; suas providências na continuidade do Instituto Cultural do Cariri, inclusive na construção da sede própria; seu denodo para trazer valiosas instituições que ora estabelecem as características da nossa Região, em todo tempo de sua história; seu ativismo nas manutenções benfazejas desta civilização caririense, sendo ele também um descendente direto dos primeiros colonizadores aqui instados nas primeiras expedições.
O acendrado zelo que Huberto Cabral manifesta na profícua missão de ativador social ultrapassa as raias da paixão, digo sem arriscar uso de termos excessivos, porquanto os resultados das suas atitudes falam dos frutos essenciais no que desempenha e promove ao ímpeto do seu amor vocacional às nossas queridas tradições.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

SONHOS POSSÍVEIS, SONHOS BONS - Emerson Monteiro


Quando veremos o mundo de olhos abertos aos bons sentimentos que passeiam faceiros nas trilhas molhadas de impactos, os quais que apenas nós indivíduos um dia conheceremos de água na boca. Viver com prazer os momentos uniformes da harmonia sem culpa ou ressentimentos, e acatar as decisões do destino de espírito desarmado; aquiescer, nos gestos imprevistos das marés, as tais criaturas obedientes a um Criador que move as parelhas dos cavalos à frente do Sol, nas charretes aceleradas das horas incansáveis, dentro da natureza mãe dadivosa. Aceitar, enfim, os balanços dos barcos enquanto o rio segue nas suas águas impetuosas, filhas equilibradas da feliz companhia dos outros irmãos, no bojo de naves luminosas que afeitas riscam os céus, nas madrugadas frias.
Porquanto pretendam discordar, os protagonistas do drama questionam os roteiros apresentados dos operários na peça. Erguem assustadas vozes de protesto, perante, no entanto, o desfilar das conveniências mais pessoais. Reclamam de barriga cheia, às vezes de mágoa, de fastio, ou pressa, mas reclamam de barriga cheia disso tão só. Levantam os braços num sinal de descaso face as contradições aparentes do sistema que eles, nós, vós, mesmos criaram nos instantes de dúvidas atrozes, no fingimento da espécie insatisfeita com o itinerário do vôo em velocidades extremas. Querem, a qualquer preço, impor condições aos limites imprevistos, desde o começo, postulando propósitos de causas iniciais perdidas, alarmistas repórteres policiais.
Andar nesse ritmo alimenta de pânico o gosto de tantos que a visão conturbada mistura, entre o desejo e o desespero, impetuosa estupidez de eras atrozes. Marcam, assim, aonde querem chegar multidões famintas, caravanas sequiosas de empedernidos seres, afoitos pássaros noctívagos.
Todavia acontecem os quadros seguintes e o palco estremece no pulo dos atores, impulsos febris de cores e formas, providências inevitáveis que persistem ao infinito da fé, em corredores escuros dos paranóicos filmes, até surgir para sempre. Valentes cavaleiros calmos tangem os seus rebanhos pacíficos nas caladas da noite, forças operantes apesar das dores que invadiram o instinto explosivo de todas as pessoas, fase de crescimento que atravessam de águas no peito.
Vislumbrar, pois, novos meios de construir as igrejas dos corações impacientes significa mistérios, doces aspectos das provas do período nefasto que lá abandonou suas vítimas aos portões da alvorada em festa que já se aproximava, e morrem nas praias, o que representa a correta imagem do que quiseram dizer os livros fechados nas bancas.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

AS FLORES FERIDAS - Emerson Monteiro

No palco dos sonhos das lindas canções,
Vivendo nos braços de ilusões passageiras,
Artistas em festa alimentam o destino
Dos pássaros ligeiros lançados aos céus.

Quanta dor reunida num vento que passa:
Laços fortes e presas são mãos invisíveis
A dominar suas vidas de moços cantantes,
Produzidos, ligeiros, bonitos e frágeis.

Assim acontece aos que se esquecem
Das possibilidades dos trilhos da vida,
Caminhos desertos e inocentes vítimas
Da garra amolada nos shows dessa lida.

Há também outras lutas em vários sentidos,
De sorrisos e luzes, nos ritmos e planos
Das ricas histórias dos grandes artistas,
Os Senhores da fama e bonecos das fitas.

Ninguém acredite em desejo arriscado
De subir as escadas de um jeito afoito
Que persegue talentos e planta ilusões
Na carreira animada dos astros da mídia.

Melhor bem será crescer consciente,
Saber ser humilde e estudar com prazer
Na escola dos dias; e amar bem os livros,
Para erguer seus castelos nos solos seguros.

E depois disso tudo vem vir o sucesso
Das fases amenas, no palco dos sonhos,
Nas horas benditas dos mundos melhores,
Ao pouso tranquilo dos campos dourados.


200111.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SÃO GONÇALO DO AMARANTE - Emerson Monteiro

Consta da tradição popular que, certa feita, vindo Jesus por uma estrada deserta, deparou-se com Gonçalo, músico da cidade portuguesa de Amarante.
- Mestre, em que lhe posso ser útil para diminuir a tristeza deste mundo? - quis saber o artista e nisso foi perguntando.
- Ora, Gonçalo, por mais que faças, não conseguirás dominar o espírito rebelde dessa gente, mais ainda desses que se divertem no prostíbulo da vila - respondeu Jesus. - Estive lá e eles se mostraram surdos aos meus ensinos, igual a muitos, que preferem continuar na trilha da perdição.
- Senhor, haverá, por certo, outros meios de educar. Quem sabe a música possa tocar os seus corações? - falou Gonçalo, disposto a colaborar na divulgação do bom caminho.
- Tudo pode acontecer. Já que é violeiro, queres experimentar esse recurso? - acrescentou o divino Mestre. Seguiram prosando no assunto. Depois desse diálogo, os dois combinaram que, na hipótese de o músico realizar a proeza da transformação dos pecadores do prostíbulo da vila de Amarante, receberia em dobro as bênçãos de curador.
Gonçalo seguiu na missão. Quando chegou à comunidade, tratou de acertar que, naquela mesma noite, realizaria uma festa em que tocaria para quem viesse ao salão de dança. Os freqüentadores do lugar aceitaram de bom grado o convite, animados perante aquela rara oportunidade.
Festejaram a noite toda até de manhã cedo. No cantar do galo, ainda se ouvia o pinicado da viola do músico. Era chegada a hora de trabalhar. Todos tiveram de procurar suas obrigações, sabedores, no entanto, de que, mais tarde, de noite, se repetiria a mesma função. Mulheres e homens aceitaram bem a chance de, outra vez, se alegrarem com a música de Gonçalo.
Enquanto isso, a notícia se espalhou das cercanias aos lugares mais afastados, quando escureceu, se apresentaram as pessoas interessadas no folguedo que invadiu a madrugada. Antes do fim de cada festa, Gonçalo repetia o convite para a noite seguinte. Não deixava arrefecer os ânimos dos frequentadores, e dessa forma continuou nos dias que se seguiram. À noite, os bailes de rara animação; de dia, os duros afazeres do trabalho de cada um dos convivas para manter a sobrevivência.
À maneira de Gonçalo, todos, sem exceção, tanto as mulheres quanto os seus amantes, se viram na contingência de abandonar os vícios e a fornicação, por meio da música animada e da exaustão das numerosas festas.
Passados mais alguns dias, concluiu a tarefa e se apresentou a Jesus, levando consigo a fieira de almas que havia catequizado. Conta mestre Joaquim Pedro da Silva, o responsável pelo grupo da dança de São Gonçalo que existe na subida do Horto, em Juazeiro do Norte, que Gonçalo, fazendo assim, adquiriu o merecimento de poder socorrer, por si só, aqueles que lhe procuram, sem carecer de intermediação, chegando até Deus com a sua força espiritual, pois dispõe da ciência que recebeu de Jesus quando atendeu a esse ofício que Ele determinou.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O DIA DE AMANHÃ - Emerson Monteiro

O que virá depois de tudo que o hoje mostra na face do presente a ninguém é dado saber, nas palavras bíblicas, pois o futuro só pertence a Deus. No entanto, quantos gostariam de saber um pouco mais dos dias que virão...
Abrir a porta do amanhã e deglutir, com antecipação, o verde da fruta ainda no pé, pisar os momentos seguintes e planejar com segurança o curso das ações e dos acontecimentos...
Porém não é assim que funciona. Há que trabalhar de outra forma. Estudar sob a luz da experiência que ilumina para trás, enquanto o carro segue para a frente.
Um dos métodos válidos será pôr em prática o conhecimento adquirido e ganhar visão realista na utilização do que a vida toda hora transfere. Os valores servem de base nessa empreitada. Chegam de dentro da necessidade. .
Enquanto a barba do vizinho queimar, a gente põe a nossa de molho.
Alguns conceitos oferecidos pela história guardam relação com isso de ganhar na experiência alheia. Daí o objetivo de estudar História, disciplina classificada de mãe e mestra. Ouvir no tempo o que outros aprenderam na própria pele.
Isso, quando jovem, deve orientar, para ver os que chegaram à idade adulta e souberam o jeito de fazer. Se os jovens examinassem de verdade, inúmeras vezes agiriam de modo diferente na época das facilidades, que bem representa a rica juventude. Nos tempos das vacas magras, o mundo vira padrasto, apresenta pesados tributos a quem esqueceu ou não soube plantar com vistas ao segundo turno da viagem.
Na mocidade, tudo floresce e sorrir. Na terceira idade, segundo a história de muitos, a porca torce o rabo. Braços dos outros, olhos amáveis, educação, gratidão, aposentos, quando comparecem aos gramados, vivam os pais e avós nas mãos abençoadas dos filhos. Caso contrário, tome peia no lombo.
Esperar, sem haver plantado, significa pouca probabilidade, no acontecer do inverno. Saber juntar nas épocas da facilidade impõe sabedoria, exige coerência e princípios, senso de temperança. Contar por certo o que prometeram dependerá dos mais variados fatores. Pensou que não, os bichos entram no jogo e a incerteza sujeita levar à baila o doloroso sofrimento.
Ninguém, portanto, de consciência boa, queira garantir certeza de que o amanhã vem seguro só porque reúne o mínimo necessário de viver e, com isso, os demais respeitarem as previsões. Tal vida, tal morte, fala o povo. Com a medida com que medirdes medir-vos-ão também a voz, fala Jesus.
Assim, nas roças que botarmos, o agora representa apenas rascunho daquilo que colheremos, eis a grande resposta do direito natural. A cada um conforme o seu merecimento.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A FORÇA MAIOR DO UNIVERSO - Emerson Monteiro

Das proposições, a mais pretensiosa, querer definir em palavras o indefinível. Descrever o indescritível. Gerar das equações um resultado impossível de números inexistentes. Isso, de contar o que representa o sentimento mais elevado, a essência de tudo. Dizer o que significa o Amor em linguagem humana, tarefa das impossíveis, admissíveis, no entanto, à medida do furor das intenções.
A paixão consciente, isto seria o amor. A força maior do Universo, isto que aciona todos os movimentos que houver num dia e haverá no outro, nas curvas tortuosas dos sempres inextinguíveis. A luz de todos os nascentes, visão de todos os olhos existentes e inimagináveis. A unidade primeira das quantidades, avaliável ao Infinito das saturações. Voz de todas as falas, destino de todos os caminhos, próximos ou distantes, em qualquer território, no campo das probabilidades.
Quando nasce um filho, traz consigo a tônica do Verbo Divino, razão principal das existências, desde o fator original dos espécimes primeiros à partição milenária das multiplicações, em menor ou maiores quantidade. O Tudo e o Nada, em iguais proporções. A Força e o Poder, nas consequências inatingíveis de visões e sonhos. Maravilha das maravilhas, prazer fugidio nas seduções, linguagem dos becos e religião das religiões.
Amor, palavra e energia, concentração de pensamento, feixe de raios convergentes numa única direção e nelas todas, direções livres e sentido absoluto das linhas e dos pontos em batimento cardíaco permanente. Algo notável, ainda, porém, quimera de tantos e muitos. Valor infinitesimal. Volume descomunal. Transformação de água em vinho, chumbo em ouro, dos alquimistas e navegadores de substâncias sagradas. Cálice sagrado, pedra filosofal, fortaleza indevassável, vitória em batalhas siderais, vetor de mobilizações sociais, bandeira de palácios em festa, condição numeral dos pitagóricos; o drama e a solução dos conflitos, nexo das histórias misteriosas, linha melódica de danças e sinfonias, fusão de corpos e junção das luminosidades, em galáxias e superfícies, projetos e planos das populações espalhadas entre o oásis e as caravanas, busca desesperada dos tesouros e prospecção de minerais raros.
Instinto de procura e encontro, o amor fala nas ficções e canta nos poetas, conduz romancistas pelas sendas da civilização. Música das esferas, sabor dos elementos, quantia das moedas deste mundo. Razão principal das tradições, o amor dos animais e insetos vem nas flores e nos passarinhos, pigmento das cores oferecidas pela luz ao vigor das águas nos caudais das quedas livres; nos sóis, nas luas, nos ventos, raios e trovoadas, tempo máximo e pulsação da Eternidade.
Som nos naipes e nas elevações; o fervor das orações. O poder superior das preces silenciosas, senso e fé dos desejos virtuosos dos trabalhadores do Bem. O amor, a fala contundente dos corações enamorados. Amor, solidão dos mosteiros e conventos, vida, resistência e renúncia; emoção das emoções, estação final e princípio de jornadas espaciais; alegria das borboletas em nuvens, nas estradas desertas; trilho e meta dos viajores perdidos, jogados aos mares tempestuosos, saudades e abraços de boas vindas; perfume das rosas e tela dos gênios pintores; e sorriso aberto das crianças felizes. A volta ao recomeço...
O amor, das proposições, a mais pretensiosa, querer definir em palavras o indefinível. Descrever o indescritível.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

HORA DA AVE MARIA - Emerson Monteiro

No ano de 1958, morando com a família em Crato, meu pai seguia, ainda por certo tempo, vinculado aos negócios do sítio, em Lavras da Mangabeira, onde deixara animais e eito de cana, de que renovava o cultivo e participava das moagens, nas épocas próprias. Nesse sentido, ia lá quase todo mês, através da rodagem de terra que cruzava a Serra de São Pedro, cheia de trechos estreitos e arriscados, conhecidos pela periculosidade e acidentes fatais que provocava, percurso que agora abriga a Rodovia Padre Cícero e reduzirá em dezenas de quilômetros a distância para Fortaleza.
Houve uma ocasião, nessas viagens, quando, já próximo do distrito de São Francisco (hoje Quitaiús), o caminhão em que viajava, de propriedade de Seu Severino Medeiros, tombou em trecho de curvas fechadas e piçarrentas. Dentre as vítimas mais graves se achava meu pai.
Machucara uma das pernas à altura do tornozelo, fraturando ossos em três lugares e sofrendo profunda contusão, o que lhe custou séria perda de sangue e demorou um tanto para cicatrizar. Veio trazido ao Hospital São Francisco, em Crato, onde permaneceria pelo período de um mês, ou pouco mais.
Durante esse turno, não poucas vezes lhe visitei e permaneci junto dele. Era eu portador constante das encomendas entre nossa casa e o hospital.
Nunca antes havia estado naquela construção de tantos corredores, salas, lugares sombrios, silenciosos, ruídos típicos; de pessoas diferentes, agitação incessante. Andava onde podia. Menino aceso, observava as movimentações e acompanhava os acontecimentos diários.
Relembro de enfermeiras, médicos, amigos de meu pai que lhe visitavam; das áreas internas e solitárias do casarão escurecido; as rampas; os portões vetustos quase nunca abertos; e da calma da capela, que tocava o íntimo da criança de nove anos com melancolia intensa, sobretudo aos finais das tardes, quando deixava ouvir os acordes da Ave Maria, de Schubert. Misto de saudade e distanciamento fervilhava meu ser; algo de uma solene paz que envolvia o ar no véu luminoso da penumbra e, aos poucos, vinha decrescendo os restos das tardes, modificando, nas notas suaves da música, a noite e seus aspectos quase adormecidos, afastando de vez, com mãos veludosas, os clarões retardatários do outro dia.
Essas marcas especiais daqueles instantes passados costumam, depois, preencher minha memória, quando ouço o canto da Ave Maria, às 18h, nas emissoras de rádio, que tocam o disco nas suas programações, avivando em mim emoções que, nessa quadra, tomaram conta de nossa família, permitindo, no entanto, que tudo chegasse a bom termo, com o restabelecimento de meu pai, o ponto forte na condução de todos nós.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

PROGRAMAÇÃO DAS ATIVIDADES DA ALL - JANEIRO/FEVEREIRO

JANEIRO – 2011


Dia 15: Posse do acadêmico Vicente Paulo Lemos

Local: Colégio Dr. João Gonçalves de Souza, Avenida São Sebastião, s/n, Mangabeira (antigo São José), Lavras da Mangabeira - Ceará - Data 15 de janeiro de 2011 (Sábado).

Horário: 16h30min

Dia 15- Lançamento do Livro "Um padre e muitas proezas” do acadêmico Dias da Silva.

Local: Distrito de Mangabeira

Aniversário dos/as acadêmicos/as

Dia 08: Secretária da ALL Rosa Firmo

Dia 11: Bruno Pedrosa

Dia 27: Madre Marieta

Dia 31: Stênio Linhares


Dia 30: Reunião de Diretoria:
Local: sede da ALL - Benfica


FEVEREIRO

Aniversario dos/as Acadêmicos/as:

Dia 02: Francisco Arruda Sobrinho

Dia 06: Dias da Silva (Ivonildo)

Dia 15: Jeová Batista

Dia 18: Hilnê Costa Lima

Dia 28: Linhares Filho

IMEDIAÇÕES DA PACIÊNCIA - Emerson Monteiro

Diz-se que a pessoa tem pavio curto quando, com facilidade, deixa disparar o instinto agressivo, pondo pés no lugar das mãos, ao menor estímulo. Por motivo dos mais insignificantes, chuta o pau da barraca, na linguagem popular. Muitos fazem disso profissão, ganham no grito situações as quais bem poderiam conduzir do jeito amistoso, com educação, aproveitando as chances que surgem, toda hora, de criar relacionamentos produtivos, e construir lugar melhor de viver entre habitantes deste mundo nem sempre tão fácil de atravessar.
Há, entretanto, diversos amigos que contribuem nesse trabalho de aperfeiçoar o trato com os demais moradores das imediações da virtude, no âmbito social e consigo mesmo, nas criaturas humanas. Um deles, a valiosa paciência.
Quanto maior o uso da paciência, melhor o seu desempenho, semelhante ao amaciamento das máquinas e dos sapatos. Paciência não esgota, ao contrário de quem perde as estribeiras e quer se justificar. Pois ela pertencer à qualidade interna dessa virtude, a capacidade para ser inesgotável. Se não, caso esgotasse, perderia sua característica principal e viraria outro estado de espírito, fraco e descartável.
Bom, perto da paciência, nas imediações, residem alguns valores apreciáveis pela riqueza que transmitem aos que deles lançam mão. A esperança, por exemplo, uma dessas personagens da infinita misericórdia, parceira valente dos instantes de aflição. A feliz esperança, mãe bondosa das preciosas noites de sono dos aperreados, passageiros das agonias desse chão quente de travessias escuras. A que jamais esquece e nunca morre, apesar dos que dizem que morreria por último, conversa de quem a desconhece. Caso assim ocorresse, porém, também perderia sua principal qualidade, invés da rica essência, nutrição dos aflitos.
Uma outra cidadã do bairro onde mora a paciência recebe o nome de fé, palavra pequena de potencial esplendoroso. Ela veio habitar aqui por perto trazendo a energia dos contatos imediatos da divindade, linha aberta de escutar, dentro do coração, os sussurros do Universo. Fé, procedente das florestas virgens da religiosidade, na fibra íntima das emoções puras, moradora inabalável dos edifícios que rodeiam a paciência, que remove montanhas, alimenta famintos da luz verdadeira, mitiga a sede dos desvalidos, clareia passos aos cegos, alegra lares infelizes e transforma pesadelos em sonhos de paz.
No recenseamento dos habitantes desse território onde mora a paciência, na cidade das almas humanas, precisa, ainda, visitar a casa de outros moradores ilustres, o otimismo, sujeito de valor apreciável em qualquer empreendimento, sem esquecer de entrevistar seu irmão mais velho, o senso da realidade, para evitar cair da cama nos excessos de fantasia. Ouvir outro, um senhor entroncado, musculoso, calmo, persistente e simpático, o respeitado professor de nome trabalho, companhia necessária todo tempo, com intervalo só aos finais de semana. E novos e úteis viventes daqui de perto, onde existe a fiel paciência, em tudo por tudo a líder comunitária do sucesso.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A DOR ENSINA A GEMER - Emerson Monteiro

A infinita sabedoria dos povos, colhida numa única frase e no decorrer de tantas eras, apresenta lições que funcionam como remédio de curar as feridas do tempo. Diz São Paulo que ninguém deve confrontar as agulhadas recebidas (Não recalcitreis contra o aguilhão, nas suas palavras textuais, na Bíblia). Isto representa a necessidade de aceitar as contingências humanas quais instrumentos que levam a subir o caminho evolutivo cheio de segredos imensos.
Desesperar jamais, portanto. Integrar, nos elementos da história pessoal de cada um, desafios quais peças da engrenagem que trará crescimento individual. Mesmo porque, a revolta de nada serviria e ainda agravaria as circunstâncias que não pediram licença para vir a campo. Quem se desespera, ou se revolta, sofre de qualquer jeito, e agrava o sofrimento duas vezes, pelo sofrimento e pela ausência da conformação.
Há mistérios que exigem paciência e trabalho, na continuação de viver. Tocar adiante do jeito que as coisas chegarem, até conseguir respostas que satisfaçam as indagações, eis o modo responsável de vencer. Isto face ao que ensinam aqueles que amenizaram as dores com notícias inteligentes, a todo o momento que olharmos na estrada dos demais. Os sábios, santos, vitoriosos da nossa humanidade, buscaram responder às grandes questões da dor através do esforço íntimo de superar os obstáculos com carinho e aceitá-los feitos filhos de um Pai supremo que a tudo supervisiona. Irmã dor, considerava São Francisco de Assis. A religiosidade torna-se, nas horas críticas, bênçãos inigualáveis de cruzar os rios cheios das provas vivas.
Deus, o sagrado de todos nós, o símbolo máximo do coração das gentes, a Este, sim, devemos pedir com ânimo forte, no silêncio reverente dos santuários da existência, nas preces fervorosas que reduzirão, do jeito próprio, as maiores indagações de sentido para viver bem.
Abrir o espaço que só a Ele pertence dentro de nós e deixar, com tranquilidade, chegarem forças de aceitar o que nos reserva o calendário da busca espiritual. Pois o merecimento se apresenta a quem se permite receber. Nessa hora, a conformação iluminará a alma e os frutos do amor virão à tona tais milagres, traduzindo na paz o bem das melhores soluções.
Ao parar e olhar em volta é que se observa o tanto de oportunidades oferecidas aos que sofreram e souberam reunir as inúmeras aulas da humildade produzidas pelo sofrimento, e nos enriquecer do que mais precisamos para sobreviver, feitos superheróis de filmes e quadrinhos.
Por isto, pelos dons da superação que os protagonistas do drama existencial são capazes de vivenciar e disso tirar o sabor mais precioso, a consciência popular criou o conceito de que a dor ensina a gemer, uma filosofia capaz de preencher o vazio das dificuldades naturais com atitude corajosa e confiante.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

SINA DE MARGINAL - Emerson Monteiro

Tarde dessas, caririenses, molhadas, quando as matas, sonoras de passarinhos cantores, parecem prenunciar o início da temporada das chuvas, nas notícias do rádio ouve-se contar da morte de um jovem de 17 anos, assassinado com oito tiros de pistola, em Fortaleza, na Barra do Ceará. Usuário de droga, fora morto por dois homens, que fugiram em uma moto. No dia anterior, abordado por traficante, que cobrava dívida atrasada, respondera atirando. Um nome a menos, uma estatística a mais, solucionando o conflito.
Situações desse tipo viraram casos de rotina nos dias atuais, multiplicados pelos noticiários feitos erva daninha que invade a paz social, rasgando de exemplos melancólicos o tempo tumultuado de cidades inteiras.
Pessoas, as menos endinheiradas das periferias, fora das tradições patrimoniais e dos festejos, arrastam fama de alimentadoras sensacionalistas de escândalos apagados pelos rastros dos rabecões enegrecidos. Outras, possuidoras de futuro, filhas dos nobres, esperançosas, viajantes do exterior nos trens de luxo da facilidade, esperam de olhos alegres o preço do sucesso.
E as tardes silenciosas proclamam a graça deste mundo em forma de normalidade e cifras reveladoras do êxito administrativo dos gabinetes oficiais, enquanto a norma rígida dos códigos reclama vagas nas penitenciárias superlotadas de moradores inúteis jogados às traças dos eleitos da sociedade.
Qualquer coisa assim que pede resposta urgente aos pontos de vista da euforia bem vestida. Indignações estridentes, armas acesas que matam às escondidas, depois tornadas públicas nos cadernos volumosos das páginas policiais, gritos de socorro a quem, e a quantos, ninguém aceita querer responder.
Nisso, os passos fora da estrada daqueles moços, filhos como outros, netos como outros, farrapos das toalhas de mesa da casa dos pais, dos irmãos; lágrimas quentes, dores amargas. Folhas nacionais largadas ao vento das agruras familiares de mães envelhecidas lá antes da hora, restos de banquetes e confraternizações, atores rebaixados nos campeonatos da terceira divisão da juventude perdida.
Chegou aos pensamentos, devagar, meio fora de hora, o alento de saber que nas barras infalíveis do tribunal das existências todos responderão em nível de igualdade, porquanto aos que muito têm mais lhes será dado; e aos que nada têm até o que pensam que têm lhes será tirado, equação definitiva das palavras de Jesus.
Longe, pois, de imaginar houvesse apenas frieza crua na justiça eterna quanto, vezes tantas, presenciamos nas histórias dessas tardes ingratas para os simples, desvalidos, nas pontas de ruas espalhadas, neste chão marginal dos becos infectos e seus barracos sórdidos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

CONVITE POSSE

CONVITE




A Academia Lavrense de Letras - ALL, por seu presidente e demais acadêmicos/as convidam V. Sa.e família para a solenidade de posse do acadêmico Vicente Paulo Lemos que ocupará a Cadeira 39, sendo Patrono o Padre Raimundo Nonato Dias. Fará a saudação o escritor Francisco Dias da Silva (Ivonildo), ocupante da Cadeira 04 que tem o ilustre nome de João Climaco Bezerra.

Na ocasião será lançado o livro "Um padre e muitas proezas", do professor Dias da Silva, com a apresentação do acadêmico e poeta Dimas Macedo.

João Gonçalves de Lemos

Presidente



Local: Colégio Dr. João Gonçalves de Souza, Avenida São Sebastião, s/n, Mangabeira (antigo São José), Lavras da Mangabeira - Ceará - Data 15 de janeiro de 2011 (Sábado).

Hora: 16h30min.

A LEITURA COMO FINALIDADE - Emerson Monteiro

Dentre outros resultados da leitura como hábito saudável, ler com frequência ativa funções cerebrais necessárias para viver consciente e com maior durabilidade no tempo.
Um conhecimento, que é de todos, repete os ditos da ciência de que o que não se usa atrofia. Em vista de serem os neurônios células vitais do sistema nervoso, à medida que se apagam, levam consigo a vitalidade essencial do bom andamento das demais atividades do corpo. Enquanto que a constância da leitura mantém a sobrevivência dessas células, e ocasionam saúde ao corpo inteiro.
Há um livro intitulado A arte de ler ou como resistir à adversidade, escrito pela pesquisadora francesa Michèle Petit, que desenvolve o tema da leitura do modo utilitário, sob o ponto de vista psicológico. Ela considera o ato de ler nos momentos críticos da vida, diante das desilusões amorosas, morte de pessoas da família, doenças, crises ou catástrofes coletivas, qual instrumento poderoso de restabelecimento dos aspectos pessoais positivos. Naquelas ocasiões, o livro apresenta sua fidelidade ao leitor, de modo a permitir energias suplementares para vencer os embates difíceis da existência.
Amigo incondicional, o livro conduz as pessoas a lugares mentais que lhes permitem chegar aos meios da calma, apaziguando distúrbios e conflitos ocasionais.
Em todos os cantos, leitores utilizam o poder da leitura para reverter situações adversas, mostra a pesquisadora, desde a Europa à América Latina, Brasil, Argentina, México, Colômbia. Ela viajou pelas diversas localidades estudando experiências de professores, psicólogos, artistas, escritores, editores, trabalhadores sociais, considerando diferentes públicos, crianças, adolescentes, mulheres, homens, escolarizados, marginalizados, sempre com a visão essa interpretativa da leitura e sua utilidade revitalizadora.
Na concepção dessa estudiosa francesa, a leitura conduz ao esquecimento temporário da dor, do medo e da humilhação (...) para despertar a interioridade, colocar em movimento o pensamento, relançar a atividade de simbolização, de construção de sentido e incita trocas inéditas. Conclui, então, que o hábito de ler permite intercalar momentos de paz nas realidades dolorosas, ofertando uma sobrevida aos leitores. Invés de fuga do mundo real, ler permite uma pausa, um intervalo necessário para curar as feridas de uma realidade demasiado dolorosa, nas suas palavras.
Segundo Michèle Petit, apropriar-se dos livros é reencontrar o eco longínquo de uma voz amada na infância, a relembrança dos entres queridos e suas sonoridades em que as palavras são bebidas como se fossem leite ou mel.
Resta a todos, também por isso, valorizar o hábito da boa leitura e o privilégio de se ser alfabetizado entre tantos que ainda não obtiveram esse direito.

domingo, 2 de janeiro de 2011

RAIMUNDO FAGNER - Emerson Monteiro

Há precisos 33 anos, ao seja, na virada do ano de 1977, encontrei o cantor cearense Raimundo Fagner. À época se apresentava na Quadra Bicentenário, em Crato, ainda nos passos iniciais da caminhada de êxitos que trilharia desde então. Dessa aproximação, viria a lhe oferecer hospedagem, a ele e a alguns amigos que com ele viajavam, Amelinha, Francis Vale, Wiron Batista, Afonsinho e mais duas jovens das quais não recordo os nomes. Morava com meus pais, naquela ocasião. Eles se achavam ausentes. A casa permaneceu, alguns dias, ao nosso dispor, enquanto o grupo ficou no Cariri uns dois ou três dias mais, e com eles seguiria para passar o Ano Novo em Orós, na casa dos pais de Fagner. Depois, no mesmo grupo, fomos até Fortaleza.
Nesta oportunidade, conheci alguns dos amigos dele numa comemoração que antecedeu apresentação do cantor, promovida no Teatro José de Alencar, no princípio de janeiro de 1978. Das figuras que se reuniram naquela noite, em um restaurante próximo à residência de Fagner, lembro de Ricardo Bezerra, Fausto Nilo, Stélio Vale, Alano Freitas, Sérgio Pinheiro, Cirino, dentre outros, todos ligados às artes e à música popular cearense, os quais formavam a intelectualidade artística de Fortaleza. Cirino eu conhecera antes, exímio violonista, havia estado com ele em algumas vezes em Crato, quando estabelecêramos amizade, e eu auxiliara no lançamento de um disco seu, no antigo auditório da Faculdade de Filosofia, nas instalações do antigo Patronato Padre Ibiapina.
Depois, passados esses anos todos, agora, no Révellion do Centenário de Juazeiro do Norte, de 2010, volto a encontrar Raimundo Fagner, em sua apresentação do evento. Nesse meio tempo, nosso contato fora só através de um telefonema, quando coordenei o Comitê Contra a Fome, a Miséria, pela Vida, no Banco do Brasil, começos da década de 90, e buscava instrumentos de ampliar os recursos daquela atividade com algumas promoções.
Em 1977, pois, Fagner despontava a nível nacional desde o seu primeiro disco, Manera Fru Fru Manera, gravado em 1973. Dono de uma carreira artística preenchida de sucessos, agora integra o elenco dos nomes imortais da música brasileira, dado seu talento de músico, cantor e compositor, dos mais festejados entre os valores da cultura do Ceará.
Nesta apresentação, em Juazeiro do Norte, o músico cantou algumas das composições que marcam os momentos destacados de seu repertório, para público estimado em 40 mil pessoas, cantando logo após as apresentações de Fábio Carneirinho e Luiz Fidelis, depois sequenciado por Maurício Jorge, na programação que iniciou a pauta das atividades alusivas ao Centenário da Independência de Juazeiro do Norte, neste ano de 2011.

sábado, 1 de janeiro de 2011

AOS MEUS COMPANHEIROS ACADÊMICOS, UM ANO DE PLENAS REALIZAÇÕES, SAÚDE E PAZ! - Emerson Monteiro

FUNÇÕES DA AUTOESTIMA - Emerson Monteiro

O zelo para consigo mesmo torna-se, todo tempo, fator por demais importante para viver uma vida saudável do ponto de vista interior, o que facilita sobremaneira o relacionamento com os outros, com o mundo que nos rodeia e alimenta desejos de prosseguir e aperfeiçoar a realização daquilo a que se veio aqui fazer neste pedaço de universo. Os obstáculos já vencidos no transcorrer dos embates do caminho mostram o quanto podem as pessoas, em termos de coragem e resultados. Temos todos, reunida em nós, na nossa personalidade, uma enorme lista de vitórias obtidas no transcorrer dos acontecimentos de nossa história pessoal. Parar um pouco e estudar este material precioso serve de reciclagem e dispositivo para considerar o quanto de recursos e instrumento de reforço dispomos, nos passos seguintes desse traçado que nos conduzirá à formação do nosso projeto individual.
As tais anotações guardadas na memória demonstram, junto ao tribunal das consciências, o poder que dispõe o ser humano, vezes sem conta, ao querer atravessar as tempestades. Ninguém merece título de perdedor quando detém as provas de sucessivas vitórias, nas lutas apresentadas pelo caminho. E nunca serão poucos os tais acertos, desde nosso início, ainda na infância; depois, na juventude; e entrando pela idade adulta. Jamais cruzar os braços ou baixar a cabeça perante desafios, esta a lição preciosa que todos reservam para si na justiça eterna, livres do que pensem adversários ou imponham os limites da resistência.
Aprendida, pois, essa atitude positiva de resistir com garra aos males do fracasso, guerreiros erguem os olhos à metade superior da linha do horizonte e tocam o barco em frente, no sentido de concretizar seus maiores sonhos, detalhe sobretudo salutar do processo vida, sonhar sempre com o que de melhor se pretende trazer ao foco das realizações. Enquanto há vida, há esperança, dizem orientadores que querem o nosso bem. O amor às coisas boas encaminha todo percurso a destinos favoráveis. Com isso, criar na imaginação o porto a chegar, o que abre, no mundo invisível, o trilho de uma exata concretização desses sonhos. Passado em miúdos, isto quer significar o quanto pode a capacidade humana de planejar o futuro e conquistar territórios.
Houve um filósofo romano de nome Sêneca que, certa feita, escreveu que nenhum vento é favorável a quem navega sem destino, daí a importância do ato de formular o endereço firme do que se pretende realizar na existência.
Bom, quando recebidas com atenção e postas na prática, as palavras alimentam de ânimo o roteiro das pessoas, frutificando as nossas ações e o gosto de crescer ao infinito de nossas potencialidades.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

QUALIDADE MUSICAL - Emerson Monteiro

Ao ler, na Folha de S. Paulo, edição on-line do dia 29 de dezembro, a relação dos 50 álbuns que formaram a identidade musical brasileiro dos anos 2000, algo me vem ao sentimento de que, parafraseando o escritor Machado de Assis, ou a música mudou ou mudei eu. Quero crer, simplesmente, que houve uma exaustão na produção e quase desapareceram por inteiro os pontos de contato que acompanharam de perto a minha ligação com a música, nas cinco décadas anteriores, desde quando me entendo de gente.
Ainda bem que, hoje, vistas as facilidades oferecidas pela Internet, podemos ouvir e gravar todo o universo das produções que ficaram para trás. Mas a relação desses 50 álbuns da Folha de S. Paulo serviu para mostrar o quanto a música popular brasileira mudou, com relação ao que se ouvia há bem pouco tempo. Na lista, aparecem cantores e ritmos variados, nos estilos axé, sertanejo, brega, revelações, samba, reggae, bahia, rap, rock, que fizeram, e talvez ainda façam, a cabeça dos apreciadores, sem, contudo, afagar no mínimo os brios de quem adota o formato tradicional ou as harmonias menos apelativas que vieram depois.
Sei, no entanto, que a música representa a trilha sonora das gerações, por isso o instinto da particularidade, o gosto só pessoal. Existem aqueles que classificam as produções musicais em dois blocos, o das músicas de que gostam e um outro, o das que não prestam. Contudo nada é bem assim, pois seria apenas preconceito, discriminação de gerações.
Num ângulo menos drástico, porém, o olfato auditivo classifica o que toca o coração e sabe por instinto distingui as peças que mais parecem barulho gravado em disco mais para tocar nos fundos de carro e nos bares zoadentos, sem o devido respeito ao gosto de quem quer paz. Ninguém possui ouvido absoluto, entretanto ruído e música se distinguem numa classificação de ritmo, harmonia, sensibilidade auditiva, efeitos ambientais, respostas coletivas. Estudos indicam até que as crianças no útero materno, as plantas e os animais respondem aos estímulos musicais.
Wladimir Lênin, dos principais comandantes da Revolução Russa de 1917, num dos seus livros, afirma que a Estética será a Ética do futuro, o que vale dizer que o belo traz regras fortes à vida, ao ponto de determinar, no gosto que reflete, a sobrevivência de valores e preservação da ordem social. As vivências do que é belo intuem no cidadão o seu código de existência, aumentando-lhe o próprio ordenamento, seja na família, nas instituições e em si próprio.
A boa qualidade artística dos tempos, em si, faz a história das sociedades e o grau de maturidade com que trata as oportunidades. Épocas e sociedades têm sua música que fala do inconsciente coletivo dos que ali vivem, portanto.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

HÁBITOS BONS - Emerson Monteiro

Andei percorrendo o juízo na busca de um tema que correspondesse aos propósitos iniciais do ano que daqui a pouco vem chegar, e trouxe algumas ideias quanto aos hábitos positivos, para exercitar nesse novo período. A mesma energia aplicada no exercício dos vícios pode ser utilizada na adoção das atitudes do crescimento social, humano, interior, na gente. Os esforços investidos no uso das bebidas alcoólicas, fumo, excessos alimentares, falar da vida alheia, dormir demais, gastar o tempo em ações inúteis, forçar os outros a engolir nossos defeitos, tudo isto poderá conter a diferença entre gastar o tempo de qualquer jeito, ou utilizá-lo na construção das alternativas de viver melhor.
Educar diz bem o que isso representa em termos de transformação individual numa pessoa. Saber pensar formas convenientes de crescimento, abrindo espaços a mudanças de mentalidade, desenvolve as chances para construir os alicerces do futuro promissor, na criança, no jovem, no adulto, e marca pontos no progresso dos países. Enquanto, sobretudo os jovens, precisam adquirir o hábito de valorizar o seu potencial através do estudo, fugindo das drogas, dos costumes nocivos, os adultos necessitam praticar o que aprenderam na existência, dando forma aos projetos de ensinar pelo exemplo todos os seus praticados.
As metas de alterar a cantiga da história em favor dos ensinos renovadores percorrem, pois, as escolhas particulares das pessoas. Desejar o que é bom, sem exercitar a prática correspondente, nada acrescenta à herança que deixaremos aqui neste chão. As grandes safras passam pelas mãos dos que possuem vontade, coragem, disposição de transformar o quadro das épocas que viveram, dotadas dos firmes propósitos de mostrar serviço naquilo em que participaram.
Quantos hábitos bons aguardam a aceitação interna dos individuais, para o fim de acrescentar paz, saúde, progresso, a este nosso mundo ainda em fase de elaboração, o qual todo dia fornece a matéria prima de projetos válidos onde há vagas para quem quiser chegar e trabalhar.
Enquanto isto, os primeiros passos pedem visão e discernimento dos operários do porvir humano. O lado que ama sempre consegue mais em termos de reverter longas esperas de desânimo. Agir com o querer da religiosidade natural, viajar dentro dos sonhos das melhores coisas e serenar a consciência e produzir valores que tragam resultados afirmativos. Deste modo, um começo de ano apresenta o sabor das sementes doces a serem plantadas nas 365 folhas brancas, abertas para preenchimento ao gosto dos autores desse outro calendário que logo mais se inicia.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

LAVRAVENSE ILUSTRE

O Violonista Francisco Araújo
Dimas Macedo

Caracteriza-se o município de Lavras da Mangabeira pelos filhos ilustres que deu ao Ceará e ao Brasil. Dali alçaram vôos meninos sonhadores e inquietos que mais tarde se projetariam nas mais diferentes atividades humanas.
Escritores de destaque, políticos influentes, magistrados de renome, cientistas e artistas plásticos de projeção internacional: eis um retrato sem retoques daquilo que é de fato e de direito a memorável terra onde nasci.
No campo da música, as contribuições de Gilberto Milfont e Nonato Luiz são irrecusáveis, especialmente porque o primeiro foi coroado com o título de maior seresteiro do Brasil e, o segundo, com o privilégio de ser um dos maiores violonistas do mundo.
O grande compositor, solista, instrumentista e arranjador brasileiro Francisco Araújo, é também filho do glorioso município de Lavras, porque ali nasceu aos 12 de abril de 1954.
Natural do sítio Caixa D’água, distrito de Quitaiús, Francisco Alexandre Araújo é descendente de uma família de músicos, sendo filho de Estevão Cipriano de Araújo e Pedrina Alexandre Oliveira e neto, pelo lado materno, de Henrique Alexandre Ferreira e Maria Gomes de Oliveira.
Seu avô paterno, Manuel Pessoa de Araújo, era natural da Paraíba e primo do ex-presidente da República Epitácio Pessoa, mas em face da sua condição de andarilho, veio a fixar residência nas margens do Riacho do Rosário. A sua condição de latifundiário, contudo, não chegou a pesar na formação de Estevão Cipriano, que incutiu nos filhos o amor pela música e pelas coisas mais belas do espírito.
Francisco estudou as primeiras letras em sua terra natal, mas a família mudou-se muito cedo para São Paulo, face à intuição visionária de Estevão Cipriano que queria um futuro promissor para os filhos, iniciando Francisco Araujo os estudos de música aos doze anos de idade.
Desde muito cedo foi influenciado pelo refinado gosto musical que lhe foi transmitido pelo pai, que era um exímio solista de violão e cavaquinho e colecionador de um seleto arquivo de gravações, tanto da música instrumental brasileira direcionada para o repertório do violão, quanto de produções musicais de outros instrumentistas, cantores e intérpretes.
Apesar de possuir um invejável domínio técnico do violão, Estevão Cipriano não tinha conhecimento de teoria musical, e quando percebeu a manifestação espontânea do talento musical do filho, decidiu procurar o professor e violonista José Alves da Silva, conhecido pelo pseudônimo de Aimoré.
Foi sob a orientação desse professor que Francisco Araújo ampliou seus conhecimentos técnicos relativos ao violão e estudou teoria musical, solfejo e harmonia aplicada ao violão, debruçando-se então sobre a literatura que remarca a teoria do violão erudito, incluindo autores como Mauro Giuliani, F. Tárrega e Agustín Bárrios, e no mais pesquisando a obra de virtuoses do violão brasileiro, da estirpe de Garoto, Laurindo de Almeida, Dilermando Reis, Baden Powell, Villa-Lôbos e Paulinho Nogueira.
A primorosa orientação do Mestre Aimoré, foi quem o levou ao Conservatório Musical de São Caetano do Sul, por onde obteve Graduação em Música, constando que após a sua formatura, estudou harmonia tradicional com Osvaldo Lacerda, composição com o maestro italiano Guido Santórsola e harmonia funcional com o musicólogo alemão J.J.Koellrreuter e com Zula de Oliveira e Marilena de Oliveira.
Em seguida, Francisco Araujo freqüentou o Vigésimo Curso de Música, realizado em Santiago de Compostela, na Espanha, em 1986, ministrado por Andrés Segovia e Antônio Iglesias, expressões máximas do teoria do violão e mestres de várias gerações de violonistas de talento.
Além da Graduação em Música, Francisco Araújo bacharelou-se em História, com habilitação em Estudos Sociais, História da Arte e História da Música Brasileira, na Universidade Ibirapuera, em 1991, mas é à música que ele presta todas as reverências, inclusive na condição de mestre e de professor da Pontifícia Universidade Católica da São Paulo.
Participou dos festivais de inverno de Campos do Jordão, nos anos de 1973 e 1974, e foi considerado pela crítica como a maior revelação violonística daqueles festivais, os quais tiveram como diretor o maestro Eleazar de Carvalho, e patrocínio da Secretária de Cultura e Turismo do Estado de São Paulo.
Em 1974 fez sua primeira turnê pelas grandes capitais do Norte e Nordeste do Brasil, na esteira do Projeto Barca da Cultura, criado pelo teatrólogo e escritor Pascoal Carlos Magno e com patrocínio do Plano de Ação Cultural do MEC. Este projeto teve a duração de três meses e tinha como objetivo divulgar o teatro, a música e as artes plásticas nas mais diversas regiões do Brasil.
O ano de 1977 foi decisivo para a carreira musical de Francisco Araújo. Foi neste ano que ele venceu o I Concurso de Composição Para Obras Violonísticas Isaías Sávio, patrocinado pela Universidade de Música Palestrina de Porto Alegre, em convênio com o MEC e a FUNARTE, com sua obra para solo de violão denominada Valsa Virtuosa Nº. 1, editada posteriormente nos Estados Unidos, pela editora Columbia Music Company, de Washington.
Suas apresentações em teatros e salas de concertos se intensificam a partir de 1977, marco inicial de sua careira de intérprete e compositor. E suas atividades docentes continuaram plenas no Conservatório Dramático e Musical Dr. Calos de Campos, em Tatuí, São Paulo, entre 1976 e 1991. Além desse respeitável Conservatório, entre 1995 e 1998 foi Professor da Academia de Música e Arte do Instituto Adventista de Ensino
Em 1998, gravou o primeiro CD, pela CPC-UMES, intitulado De Sertões e Serestas, contendo obras instrumentais para solos de violão, todas de sua autoria, sendo este CD considerado pelos críticos como sendo um divisor de águas na história do violão no Brasil. E em 2002 foi a vez do CD Deitando e Rolando, também divulgado pela CPC-UMES. E a partir de então não parou mais de crescer esse excepcional instrumentista brasileiro, sendo de 2010 o seu terceiro CD, Estilo Brasileiro.
Pesquisador incansável da história do violão e um dos maiores teóricos desse importante instrumento musical, Francisco Araújo é autor do livro Violão, Uma História Brasileira, destacando-se também como intérprete dos mais autorizados da música brasileira de formação clássica e erudita.
A sua produção musical para solos de violão é bastante extensa e diversificada, somando mais de quatrocentas obras instrumentais dos mais variados estilos, destacando-se entre elas a Coleção de Valsas Românticas, contendo 90 peças, e os 35 Estudos Técnicos Para Violão, divididos em duas séries: 10 pequenos estudos e a grande série de 25 estudos, sendo esses estudos fruto de sua formação erudita.
Já as suas Sonatas Jazzísticas, para flauta e violão, pertencem à sua produção camerística, entre todas elas merecendo destaque as seguintes: Balé Gitano, Dança Oriental, Danças Exóticas, Seis Prelúdios Apoteóticos, Sete Valsas Virtuosas, Sonata Estilizada e Suite Cigana.
Trata-se, pois, de nome que honra a cultura musical do Ceará e do Brasil e que bem alto eleva o município cearense que o viu nascer.

Fortaleza, outubro de 2010

UMA INTERROGAÇÃO ACELERADA - Emerson Monteiro

A velocidade com que o parque industrial produz automóveis e os lança ao mercado consumidor segue deixando enorme vazio nas respostas ao problema de circulação e estacionamento que isso ocasiona a toda hora, sobretudo nos países de desenvolvimento caótico e duvidoso, semelhantes ao caso brasileiro.
Para imaginar o nível de seriedade do assunto, vale dizer que uma capital do porte de Recife, exemplo aqui perto, também no Nordeste, recebe hoje, a cada dia, o número médio de cem novos veículos, despachados ao burburinho da metrópole de si já saturada dos mais diversos desafios atuais.
Essa civilização do petróleo, grosso modo, impõe regras extremas de obediência aos mercados de sua órbita, através das cláusulas inegociáveis do poder soberano. O carro é a estrela principal da festa, pois gera divisas e paga impostos, contudo reclama longos e intermináveis caminhos asfálticos (o que, só no Brasil, significa 62 mil quilômetros de rodovias federais), além das ruas largas e avenidas de muitas pistas, exclusivo monitoramento através de pessoal técnico, enquanto as políticas oficiais ignoram construção e ampliação das estradas de ferro jogadas no ostracismo.
O tal mundo capitalista ocidental, portanto, aceita bem sobreviver sobre automóveis qual inexistisse alternativa de locomoção. E outras matrizes energéticas são pouco consideradas, a não ser o combustível ora utilizado. Espécie o sistema refreia o avanço das outras energias. As energias solar, hidráulica, elétrica arrastam passos, contidas na ausência quase absoluta de pesquisas ou financiamentos.
Há notícias de iniciativas que, logo consideradas, sumiram como por encanto, na experiência do carro a água, do carro elétrico, este que, por sua vez, só de longe parece despontar nas ilhas japonesas. Tentativas de transportes coletivos movidos à energia solar, ou elétrica, saíram das cogitações. Há estudos, inclusive, de transportes desenvolvidos à base de oxigênio, sem merecer, na obtusidade do trato industrial, maiores possibilidades, ainda em fase preliminar pouco levada a efeito, ou eliminada nos primórdios.
Durante a espera de soluções ao grave enigma de quilométricas distâncias, metrópoles e modelos econômicos, prenuncia-se temporada ativa de caça à genialidade dos tempos, com vistas inventar as respostas coerentes do confronto homem versus automóvel, embate que, até agora, dá vantagem ampla às máquinas superaquecidas.

domingo, 26 de dezembro de 2010

VIAGEM AO RIO DA INFÂNCIA

Porque acredito que a vida é feita de movimentos incessantes, que modelam a nossa maneira de ser e de agir, proveito o tempo de lazer para viajar, às vezes para conhecer o que existe para além dos muros do Brasil.
Umas férias merecidas, sorvendo a cultura e a linguagem de velhas cidades européias, deixam no espírito, na imaginação e na memória algumas efusões que dificilmente se apagam nas nossas retinas fatigadas.
Hoje, treze de dezembro, estou de retorno da bela cidade de Le Havre, situada na região da Normandia francesa, bem no encontro do estuário do Sena com o Canal da Mancha.
A minha condição de professor convidado da Universidade de Le Havre, onde ministrei conferência sobre o processo eleitoral e os valores da democracia brasileira, me faz pensar na recompensa que a vida nos dá a cada instante.
O que quero registrar nesta crônica, contudo, é o impacto que essa importante cidade portuária exerceu sobre mim, sobre a minha visão e a minha sensibilidade de artista e de viajante.
Enfrentei uma tempestade de neve, há três dias, quando desembarquei em Paris, vindo da Alemanha, mas em Le Havre a temperatura se fez mais generosa com a minha condição de nordestino, acostumado com o calor dos trópicos e com o clima ameno que somente o Ceará sabe transmitir a seus filhos.
Em Le Havre, assim como na França e em toda a Europa, as condições de vida das pessoas são muito diferentes daquelas em que vivem os nordestinos e muitos habitantes do interior do Brasil.
A mente humana aqui foi libertada do processo de escravidão social e do processo de dependência política que vinculam muitos cearenses à manipulação dos seus representantes políticos.
Em qualquer parte do mundo aonde esteja, sempre me vem ao baile das lembranças os encantos da terra onde nasci e assim também o traço natural e a cultura do nosso querido Ceará.
Navegando sobre as águas do Sena, em Paris, ou contemplando o estuário do Sena, em Le Havre, o que me vem à mente, de plano, é o Rio Salgado e a sinuosidade das águas da infância; o que se impõe no percurso da lembrança é o retrato da velha cidade onde nasci.
Lavras está em todas as cidades pelas quais passei em todos em dias de viagem: assim em Londres, como também em Bruges, Amsterdam, Paris, Bruxelas ou Colônia.
É como se o mapa mundi fosse povoado de saudades e lembranças que se deixam gravadas no recesso do sonho. É como se o Reno, o Tâmisa e o Sena refletissem a brisa serena do Salgado, o mais doce de todos os rios que os meus olhos não se cansam de ver.

Paris, 13.12.2010

DIMAS MACEDO

Cruzeiro

Cruzeiro
“Para oceanmar há sempre um pedaço de mar.”

Manhã ensolarada, malas prontas, últimos arremates na bagagem de mão para concretizar um sonho, navegar sobre os mares. A saída sem despedidas, minha irmã já tomara seu rumo para não envolver-se com minhas aventuras. Taciturna segurando meu entusiasmo me eximo de demonstrar para ela meu estado de felicidade para não entristecê-la cada vez mais. Dez horas, o Gomes aconselha-me a contactar com o grupo de amigas para o encontro no cais do porto do Mucuripe. Partimos rumo ao sonho, ele incentivando-me e fazendo algumas recomendações, exclarecendo por não compartilhar desta aventura comigo, razões óbvias, por suas tantas idas à Fernando de Noronha durante muitos anos de trabalho na Marinha do Brasil.
Cais do porto do Mucuripe, literalmente um lugar de referências, um dos maiores pólos trigueiros do país. Do saguão não se tem visibilidade para os navios atracados. Ao chegar o salão de embarque estava quaze vazio, de repente enche-se de figuras vindas de diferentes lugares, com destino ao Arquipelago de Noronha a bordo do Bleu De France, em grande estilo.
Dirijo-me ao balcão para os devidos procedimentos de embarque. Enquanto aguardava minhas amigas companheiras de aventura que também fizerem seus check ins. Lidu, Olga, Amélia, Karla Ianara, Dalila, o casal, Aristeu, Marinalva e o garoto Gabriel, o mais animado da turma.
Meio dia, chegou a hora do tão sonhado embarque. Subimos as escadas alegrementes, recepcionadas por um simpático grupo da tripulação com tratamento vip. A partir daquele momento fotografando até o último passageiro ao entrar a bordo, a escada ainda não se fecha, recebe jornalistas, secretário de turismo de Fortaleza, para almoço a bordo com oficiais e chefes de departamentos. Nós não pertenciamos a mais ninguém, nem a si mesmo, o sonho se descortinava. O anúncio pelo sistema sonoro nos convoca à recepção para dar início as instruções para realizarmos o cruzeiro. Abertura de contas e inscrições para escursões em Natal e na ilha. Na permanência do navio atracado no Mucuripe fizemos simulação de emergência com equipamentos de salva-vidas, em seguida ficamos livres para conhecer a embarcação de doze andares. Somente a praça de máquinas não poderia ser visitada. E assim procedemos, devagar, subiamos e decíamos escadas e elevador, por fim dirigímo-nos ao andar panorâmico para deliciarmos a boa gastronomia francesa. Sabe-se que, a cozinha francesa, reputada em todo o mundo pela sua excelência, caracteriza-se por uma grande variedade de pratos, vinhos e queijos, considerados como uns dos melhores do mundo. No bufet do Bleu De France estavam expostos, variados pratos franceses como os famosos baguetes, croissant, patês, outros como, molhos, pastas e queijos, até mesmo o pot-au-feu, uma espécie de cosido, que também apreciamos.
Cinco horas - o sistema sonoro anunciou a partida. Direcionamos para o solarium na polpa da embarcação para melhor apreciarmos o pôr-do-sol e a saída de Fortaleza. Expetáculo ímpar, entusiasmo, animação, nossas e de tantos outros passageiros que encontarvam-se embarcados.
O transatlântico, parte em movimentos lentos e apitos sonoros e tristes. O monstro lotado de viajantes sobre as águas azuis do oceano flutua elegantemente. Passam por ele, outras embarcações. Escureceu, o navio iluminou-se e começa a balançar, inicia-se outras atrações: banhos de picinas, spar, bibliotecas, bares, salão de beleza, jantares no bufet e no restaurante Le Flamboyant, espetáculos etc. Um dos destaques na programação de bordo é para o entretenimento infantil.
Noite, lua, céu e mares, sem solidão; uma atmosfera única, radiosa, de uma efervescência colorida, onírica, mágica. Expectativa transbordante, empolgada, vibrando, oceamando; apenas um embaraço, passei a marear. Situação desagradável, jamais poderia crer. Fico eu, na primeira noite fora das programações, não havia como participar de mais nada, mareada. A companheira de viagem Amélia, me sugeriu tomar uma medicação. Aceitei. Foi tardia, já não mais me segurava. Fui ao Flamboyant apenas para não ficar sozinha na cabine, no entanto não conseguia controlar o enjôo, a saída, recolher-me desanimada. Noite de sono pesado, não percebi mais o embalo do navio sob efeito do dramim. Chegamos em Natal:

Ó! Grandiosa embarcação
Vagarosa, toma o rio, em procissão.
Na luz incandescente matinal,
Alça a Natal querida
Sobre a escuma na costa estendida...
No oitão da estrela vesperal.
Banhistas despreocupados
Despertam extasiados
Com a brancura do navio
Num solene despertar a sorrir
Observam, inertes a entrada triunfal
Da bela embarcação no rio Potengi.

Despertei bem melhorada, preparei-me para a chegada na cidade do sol. Matar a saudade das amigas e daquele cenário lindo. Onze horas da manhã, minhas amigas, Maria do Ceo, Cíntia, Iracema e Lulu, vem ao porto recepicionar-me. Que alegria! Saímos para a praia de Areia Preta e no Farol Bar ficamos confabulando sobre diversos assuntos e saboreando a tradicional e gostosa carne de sol do Caicó. Retornamos ao navio, tarde de animação. Por volta de três horas, outra turma de amigas anunciam que estavam no porto para me ver. A Cássia, Francisca, Lúcia e Terezinha me convidam a descer para nos abraçarmos. Estas com faixas de boas vindas ficaram até a partida da embarcação. Quanta alegria, quanta emoção!
Na cabine começamos eu, Olga e Dalila, os preparativos para noite de gala. Bem produzidas, com os demais da turma, na entrada do restaurante fomos saudadas pelo comandante Augusto Neto, e fotografadas. Coisa de praxe em cruzeiros marítimos. O navio em movimentos lentos, balançava cada vez mais e deixava muita gente mariada. Reccolher-me foi a solução, tomei mais uma dose da medicação indicada pelo infermeiro do navio. Dormi a noite inteira, só acordei ao raiar do dia.
Da janela da cabine vejo a clássica Aurora, o rocsicler com seu róseo encantador na linha do horizonte, subo para o solarium. Sutilmente descortina a decisiva manhã de três de dezembro, mole de sono como pétalas orvalhadas, um up time toma conta de mim, no mirante do navio, entre nuvens, revoadas de atobás, e o assombro da natureza – o sol desperta, é a alegria da chegada no Arquipélago Fernando de Noronha. Deslumbramento, encantamento. Me eximo de descrevê-la na minha pequena condição de amadora, coisa que sempre costumo fazer em viagens, desta vez não coube a mim, estava pois, diante de uma obra fantástica da natureza. Entreguei-me a emoção e vi que cada coisa bela suscitava naguele momento de embevecimento, apenas uma merecida comtemplação, pois tinha de saborear, vivenciar cada coisa em sua plenitude.
No inclinar do dia (3) três, o céu ainda pardacento, subi sozinha ao andar panorâmico. Em comtemplação, ao longe avistei um cardume de golfinhos que parecia saldar os passageiros, uma forte emoção tomou conta de mim.
Canção ao Mar Azul
Ó mar azul
Traz-me o bálsamo
Do teu sal
Para o cerne do meu ser
Encontrar o centro.
Ó mar azul
Traz-me essa cor que me acalma
Transcende meu ser
Alimenta minha alma.
Ó mar azul
Traz-me essa fonte de energia
Renova minhas forças
Para aumentar minha alegria.
Ó mar azul
Traz-me a mansidão dos golfinhos
Para cultivar em mim a inteireza
Manter em mim a sanidade
Complementar minha natureza.
Logo depois do café iniciamos outras aventuras. A bordo de um barco, eu minhas amigas e muitos outros passageiros embarcamos rumo as praias de águas claras com uma parada na baía dos golfinhos, onde tivemos a grata satisfação de vê-los em cardumes em suas belas cambalhotas, um expetáculo maravilhoso e emocionante, provocando frison a todos. Visitamos as principais praias: Do Boldró, Baía do Sancho, Bode, Quixabinha, Meio, Cahorro, Cacimba, Padre, Conceição etc.
No dia seguinte fizemos a escursão terrestre. Visitamos de buggy parte da ilha, os principais pontos turísticos, Morro dos dois irmãos, Morro do pico Centro Histórico, Forte de N. Senhora dos Remédio, e algumas das praias paradisíacas já visitadas de barcos; fomos apreciá-las de fora por terra. Lidu com sua filmadora, registrava tudo. Fernando de Noronha, um arquipélago de paraíso ecológico e turístico brasileiro, fica localizado no oceano atlântico a leste do litoral do Rio Grande do Norte. É um distrito estadual pertencente ao estado de Pernambuco.
Nossa permanência lá durou numa faixa de trinta horas, período permitido pela admimistração da ilha. Nesse mesmo dia, (4) quatro de dezembro por volta das(14hmin) quatorze horas, deixamos a ilha de volta para Fortaleza, o transatlãntico afastou-se silêncioso, de modo que nosso companheiro de viagem o garoto Gabriel, ao perceber ficou triste, rescentido por não querer aceitar que o cruzeiro estava terminando. Outra vez subimos para o solarium para contemplarmos o pôr-do-sol. Desta vez juntamo-nos a outros companheiros que conhecemos no navio e fizemos uma corrente de oração. E quanto tempo ficamos assim, aparentemente imóveis... nessa contemplação - nesse mergulho na natureza parecíamos ser as únicas pessoas que existiam naquela embarcação sobre as ondas daquele imenso e profundo mar azul e sereno. Mas, sabíamos que, outros poderiam estar sentindo o mesmo espanto a mesma emoção que nós estavamos sentindo. A noite bordada de estrelas, surge esplendorosa, e todos são convidados pelo animador do navio para última festa no grande salon, voltamos para as cabines para uma produção especial da noite de despedida. Olga, vestiu-se a caráter, estava estilosa. O grande salon ficou repleto. A vez era do turista, do nosso grupo, a garota Dalila encantou a todos com sua bela voz.
Com o mar de vento em polpa, a embarcação flutuava tranquila, muitos passageiros recolheram-se em suas cabines, Aristeu, Marinalva, entre outros ficaram aproveitando as últimas atrações e desfrutando do bela paisaigem noturna sobre as ondas.
O tempo discorreu veloz, a noite foi ingrata, passou como um raio; ao raiar do dia (6) seis, sonolenta escutei as vozes dos carregadores de malas. Abri as cortinas, vi que estávamos chegando em Fortaleza, entre o sol que despertava e os arranhas-céus bordando a orla marítima. Via-se o rebocador cercando o transatlântico, subi para apreciar do andar panorâmico com uma certa tristeza, por deixar um ambiente atraente e sedutor. A segunda-feira fervilhava em Fortaleza, depois do navio atracar, com a alta temperatura ambiente nos obrigava a saboearmos sucos, frutas e o croissant como despedida. Assim, deixamos o Bleu De France.

Rosa Firmo

OLHOS DE VER - Emerson Monteiro

Nestes tempos libertos e comunicativos, acham-se destravadas milhões de portas ao sabor do conhecimento de dentro da humanidade e do universo, na história dos tempos idos e das possibilidades dos tempos que virão. Ninguém pode reclamar de sonegação de informações. O trabalho das eras chegou ao nível dos desejos avassaladores das oportunidades, nos diversos campos do saber, e torna o viver contemporâneo em um oceano de ofertas, no que diz respeito à quase totalidade técnica de pesquisas, emoções, religião, lugares, personalidades, artes, palco luminoso de luzes e movimentos, posse absoluta das gerações inteiras, sertão, mar, geografia, física, música, ciências.
Aos habitantes coloniais do Planeta bastam: levantar a vista, apertar uns dois ou três botões e fixar o ponto em que a empanada revelará os segredos das origens, mostrando as previsões futuristas dos cálculos infinitesimais. Verdadeira festa de proporção desconhecida limpa as carências, sem contar somas fabulosas acumuladas nos gabinetes e as próximas ações de governo, que melhorarão os recordes obtidos, tudo a favor do patrimônio da raça dos sonhos e da imaginação.
Visão objetiva indica caminhar livre dos interesses exclusivos de só alguns, fora das intenções apenas individuais. O barco pertence ao coletivo, queiram ou não queiram apostadores da grande obra, que questionavam o sentido dessas evoluções. Quando lá nos primórdios apareceram os primeiros hominídeos, antigos resquícios dos atuais seres humanos, por volta de dois a três milhões de anos, já havia na semente o projeto aqui trazido ao campo das multidões. Nada melhor do que ouvi no tempo a existência dessas provas provadas.
Cabe hoje, no entanto, aos protagonistas da cena, valorizar o patrimônio obtido, horas, ar, claridade, energia, que alimenta a condição da grande massa no seu crescimento. Letras pulam acesas na frente dos atores todo momento indicando permanência e generosidade, através das consciências, numa opção de selecionar o lado positivo das duas alternativas de viver e agir.
Longe, pois, tirar de ninguém as chances de pensar maior, desestimular a felicidade de ver as paisagens boas, ler os roteiros alegres trazidos nos braços perfeitos de Quem que nos criou para uma trajetória de benções e que conduzirá o processo justo a bom termo, mantendo o ritmo ideal do vasto espetáculo onde habitaremos para sempre. A todos um Ano Novo de plenas realizações.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A LEI DA COMPENSAÇÃO - Emerson Monteiro

Discorrer quanto às leis do mundo moral requer dose dupla de poder de expressão e clareza nos detalhes, ao menos para chegar perto da compreensão de quem escuta e informar o suficiente daquilo que se pretenda, porquanto eis aqui um tema que pede palavras novas, aspectos instigantes de convencimento e raciocínio, cores e formas excitantes, senão, nada feito, assunto encerrado, botas jogadas fora. Isso porque a realidade pressiona sem dó nem piedade, visualmente, concretamente, materialmente; realidade, aquela que circula em torno da gente feita mutuca, impõe seu respeito em quase tudo e todo tempo, independente do gosto particular das pessoas e modas.
Uns apetites querem sabores picantes, cheiros intensos das circunstâncias, reclamam alimentos pesados, esportes radicais, sons estridentes, emoções fortes. Outros, os poéticos, por sua vez aceitam ritmos e harmonias suaves, o sabor mais oriental dos pratos vegetarianos, o hálito perfumado de incensos e flores, que lhes tocam a leveza da sensibilidade e transporta aos abismos infindáveis das vastidões distantes, passageiros aceitos de viagens impossíveis.
Bom, querendo falar de uma dessas leis dos mundos morais, coisas abstratas que existem fora do mundo físico, falar da lei da Compensação, começamos relacionando-a com outra lei já por demais reconhecida, a lei da Gravidade, que nos mantém grudados ao sistema solar, sem a qual se tornaria inviável permanecer no solo, e, caso contrário, vagaríamos tontos pelo Universo, quais meteoros ou cometas, errando no vácuo. Dessa lei, também invisível, ninguém duvida. Mas existem outras que formam o campo de força onde estamos.
Uma delas, a lei da Compensação, por sua vez, nos reconforta por dentro nas crises inevitáveis, e esclarece aquilo que a vida impõe, pois obedece a regras ocultas, porém manifestas, na história de todas as pessoas.
Por pior que sejam os caprichos do Destino, em troca virá o reverso da medalha permitindo uma leitura positiva das ocorrências, revelando graça e razão de ser. Ninguém gira, portanto, ao léu fora das normas perfeitas das leis da Natureza, na Justiça exata que rege os acontecimentos desde o princípio eterno das evidências.
Em rápidas considerações, dizer que a ciência de viver implica na interpretação do que ocorre, seja de ruim, seja de bom, obedece a determinações superiores que conciliam as existências de modo justo. Ninguém nada paga sem dever, ninguém nada sofre sem merecer. Caso não atrapalhemos, todas as ações fluem por si e virá, um dia, a compensação amenizar as dores, no tempo certo, sem sombra de dúvidas. Ainda que cientes, no entanto, só poucos aceitam como regulares os tropeços da sorte, sofrendo deste modo antes e depois das tempestades, esquecidos da perfeição que determina a Lei e suas lições de conforto a todos nós.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

AS RAZÕES DO PERDÃO - Emerson Monteiro

A pequenez das individualidades humanas responde a um tanto das indignações que vivem aparecendo nas encruzilhadas deste mundo. É pisarem no pé da gente que sobe fogo de arrogância do tamanho da falta de juízo, gerando atitudes imprudentes, garras afiadas rasgando folhas de zinco e palavras agressivas de sapecar e sacudir as estruturas em volta. Riscos inesperados de causar contrariedade em nós e nos outros, nas famílias, na sociedade, destruindo esperanças e futuros brilhantes pela frente. Depois que passa o temporal, sobra grudado no céu da boca o desassossego da raiva, bicho que, alimentado no orgulho, sujeita virar ódio, com amplas repercussões negativas, de causar espanto nas páginas policiais mais avermelhadas.
Esse endurecimento de gênio vem de longe, dos tempos de menino, das famílias equivocadas e seus conselhos de vingança. Lembro bem de quando no colégio apareciam desentendimentos de alunos, o professor José do Vale buscava contornar a revolta dos mais agressivos, e dizia:
- Vocês já ouviram falar na existência de um quarteirão de valentões? - Isso ele justificava porque os valentões não duram muito, se destroem com extrema facilidade, pois, como dizem os orientais, ninguém se aguenta muito tempo na ponta dos pés.
A mansuetude, portanto, torna-se, a cada momento, uma norma de sabedoria valiosa para todos os lugares deste chão, ainda que haja competições de tudo quanto é lado. O capitalismo vive disso, da competitividade exacerbada, porém insiste em desestimular o extremo das guerras, numa contraditória hipocrisia. Essa constatação demonstra ser a do fio de equilíbrio em que se arrasta a civilização deste período da história.
Jesus, no entanto, trouxe o perdão das ofensas qual motivo da evolução aos níveis espirituais do seu Reino dos Céus. Dar a outra face quando nos baterem. Ignorar as provocações. Não ter inimigos. Uma doutrina digna e fundamental para a transformação superior que buscamos em nos mesmos, no embates da convivência pacífica. O Caminho, a Verdade e a Vida, passos da salvação dessa jornada, no campo atual das coisas materiais.
Assim, o perdão revela o lado divino dos seres humanos e que os conduzirá ao sonho da esperada felicidade, única justificativa de atravessar os desafios da existência com glória e com sucesso. Instrumento de exercitar a humildade, quem obtém o grau de praticar o perdão decerto usufrui no coração os valores da aceitação de melhores sentimentos bons, o que Jesus ensina através de suas santas palavras.
Perdoar, eis o meio eficiente de acalmar, dentro de si, as forças destruidoras da agressividade, sentimento contrário à poderosa Lei do Amor maior.