domingo, 15 de agosto de 2010

ZODÍACO - Emerson Monteiro

Na década de 70, Salvador fora contemplada com a agência mais luxuosa do Banco do Brasil. Construída na artéria principal do Comércio, Avenida Estados Unidos, defronte ao porto, é um prédio monumental, todo revestido de mármore branco, de nove andares, que, em 1977, abrigava em torno de 500 funcionários. No andar superior, situava-se o auditório e o restaurante, este palco do que irei agora narrar:
Escolhido para assistir o inspetor Mário Jofre, mineiro de quatro costados que inspecionava a CACEX da agência, lá um dia almoçávamos no restaurante, o que costumávamos fazer durante sua estada na Bahia.
Ele havia pedido um bife mal passado, mas um único bife, que ocuparia o prato inteiro, acostumado a comer toda vez em que presenciei.
E enquanto esperávamos as refeições, aproximou-se um colega com quem desenvolvi rápida conversação a propósito de astrologia, horóscopo, essas coisas que, houve um tempo, me interessaram.
O inspetor prestou alguma atenção ao assunto. Quando o colega se afastou, quis ele saber se eu possuía conhecimento de signos. Respondi que sim, apenas qualquer. Então veio perguntando à queima-roupa:
- Pois dia a qual signo eu pertenço? – isto na mesma ocasião chegava o garçom trazendo o prato repleto da carne que ele pedira.
- Bom, inspetor, pelo prazer que o senhor tem de comer carne quase viva, deve ser Leão – respondi no chute, sem muita demora.
Com a resposta, o homem quase esquece o alimento à sua frente, alardeando em voz alta as minhas qualidades de conhecedor de signos, etc., na maior das alegrias.
Nisso, bem naquele movimento, vem chegando Brito, o gerente adjunto responsável pelo pessoal da agência, dotado da fama de austero, executivo competente, típico das empresas grandes. Mediante a cena, o inspetor se dirigiu a ele já contando da minha capacidade em adivinhar o signo das pessoas, propagando uma fama recém adquirida.
Brito chegou calado e sentou à mesa conosco, sério, cara dura, sua característica, para, mantendo a pose, deflagrar:
- Sendo assim, diga qual o meu signo. - Imaginem a tal situação em que me vi, naquele momento, metido até o pescoço numa sinuca de bico.
Dentro de período curto, sem tergiversar, reuni os elementos que o juízo ofereceu e fui respondendo:
- Bom, deve ser Gêmeos ou Balança.
Quase no susto, vi a surpresa tomar de conta da fisionomia grave do gerente e escutei outra pergunta, agora admirada: - Por que Balança, por que Balança?
- Pelo seu jeito ponderado, equilibrado, de fazer o que faz – revidei, liberando a apreensão do imprevisto.
Nessa hora, terminava a refeição e, temendo novas indagações, cuidei de saltar fora, alegando compromissos de urgência. Vejam só, nem eu sabia dessas minhas qualidades de adivinho, demonstradas ao acaso da situação.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O APRENDIZADO CONSTANTE - Emerson Monteiro

Um modo especial de encarar as diversas situações dentro dos dias é olhar o mundo livre de julgamentos e revoltas desesperadas. Na razão direta do pouco domínio das pessoas com relação aos acontecimentos, virou norma inteligente não teimar diante dos obstáculos, por mais comuns que eles sejam. Sabedoria acima de tudo representa, portanto, paciência, conformação, humildade em face daquilo que ninguém consegue resolver por si próprio, deixando ao tempo abençoado soluções inesperadas e impossíveis. Como gostam de repetir os afoitos: - Devagar se vai ao longe.
No entanto, só dizer isso pouco significa em termos de compreender que mistério monumental sempre invadirá o chão onde pisa cada um, ainda que detenha faixas de conhecimento e organize com cuidado, mesmo em horas cinzas, os conceitos da natureza. Porquanto ninguém abrange tudo em suas investigações e aprofundamentos.
Nisso algumas respostas somadas apenas falam insignificâncias do tanto que o futuro reserva, no estudo constante dos segredos universais.
Algo, porém, já se sabe e atende suficiente do que até agora foi realizado pelos povos, e dá para o gasto de sobreviver. Há uma espécie de mínimo necessário que conduz o processo a resultados desejados. Para onde se virem, os humanos crescem na tecnologia dos séculos da experiência. As respostas permitem que um sistema continue alimentando a espécie, no que pesem críticas de ecologistas aos excessos pecaminosos.
Em resumo, existir e adquirir maturidade em tudo por tudo, desde sonhar, comer, viajar, simboliza esse itinerário valioso dos momentos históricos depositados nas folhas secas do tempo.
Conquanto tantos reclamem, não existe outro jeito senão aceitar as contingências, arrumar os pensamentos e cumprir as leis, período este de adquirir mais conteúdo arrecadado no decorrer das existências.
Dúvidas e obstáculos significam, pois, oportunidades para novas e emocionantes jornadas de consciência e contribuições, fatores essenciais ao aprimoramento de pessoas e civilizações.
Ah! Quanta perfeição habita nessas estradas solitárias do percurso vida!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

IMAGENS - Emerson Monteiro

Elas vêm de novo se achegando aqui por perto espraiando pelo firmamento do juízo, e tomam conta desse universo inteiro de mim. Os fragmentos amarelecidos nas lufadas de vento em folhas sacudidas, multidão impaciente, dão mostras de vida nas árvores da Serra. Junto, cantos esparsos, pipilados intermitentes de aves friorentas, ponteiam cada instante, assinalando o rufar do relógio preso dentro do guarda-roupa indiferente na condição da casa. E fiapos soltos de pensamentos voam libertos pelo ar, quais acordes sincopados de velhas sinfonias do mais distante passado. As cicatrizes do aprendizado, que a história oferece ao sentimento porejam de interrogações, nos toques abandonados de reluzentes aventuras arcaicas ao sol da manhã fria. São porta-lápis de aulas anteriores que invadem o querer da gente de falas, lembranças de filmes, livros, poemas, numa sala vazia das pessoas que se ausentaram, deixando saudades contundentes na existência audaz, enquanto o barco, impávido, seguia sua jornada-correnteza nos caminhos a acima.
Imagens grudadas nas paredes da memória que ardem, pois, notícias agitam o esquecimento ainda meio adormecido. Tantas palavras aqui depositadas em tomos empoeirados, nas prateleiras das coisas fugazes, biblioteca milenar de quimeras, sonhos, névoas, estremecimentos, motores eternos, quase trilhos, que circulam dimensões consistentes, acordes, cantigas, histórias, palmas acesas, o farol aberto das enseadas, grilhões rompidos e normas restabelecidas.
Cruzar pontes levadiças, cavaleiros andantes, vultos escondidos sob capuzes misteriosos, sombras que desfilam na retina imortal de olhos ensolarados, alvoradas festivas ao gosto próspero do viver sorridente que brinca semi-deuses conosco quadro a quadro.
Quantas cartas vagam silenciosas, a transcorrer os espaços aquecidos da alma. Quantas vagas... Então, número infinito de perguntas pulula na tela verde-azul em gotas suaves de ondas quebrando ao acaso, luzes vindas bem de dentro; com isso, mostram avisos de outras formações em movimento, mesma sequência de objetos ofertados às portas e janelas entregues no sereno circunstancial das horas.
Um pulsar de veias no só cuida de aumentar o cenário interior entranhado pela música do vento. Estrelas que latejam céus de ritmos persistentes. Contudo, cheiro de vida preenche o bojo dos sentidos, circula em volta do mastro do coração e desce pelas encostas adormecidas do corpo, tatuando marcas indeléveis, gravadas para sempre na eternidade de um todo coerente sem desaparecer ingrato nas curvas macias e carinhosas dos lençóis.
OBS.: Notas de uma madrugada fria de domingo, inícios do mês de agosto de 2010.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

CONVITE


Cumpre-nos, em nome do Presidente João Gonçalves de Lemos, convidar V. Sa. e família para participar da sessão plenária da Academia Lavrense de Letras a realizar-se no local, data e hora abaixo indicados.

Pauta:
• Debater e votar alterações estatutárias, ingresso de novos acadêmicos,
• Palestra do acadêmico escritor, biógráfo e poeta Dimas Macedo,
• Celebrar o aniversário Presidente da ALL.
Local: Livraria Acadêmica, Rua Costa Barros, nº. 901 – Aldeota.
Data: 14 de agosto de 2010 (sábado)
Horário: 9h30min.

Secretária Geral:
Rosa Firmo Bezerra Gomes

quinta-feira, 29 de julho de 2010

ATITUDES NO BEM - Emerson Monteiro

A Terra é nossa casa, eis o título adotado pelo cantor, compositor e instrumentista Nando Cordel para desenvolve um projeto que visa acordar no coração das crianças, jovens e adultos, a riqueza das boas maneiras: o respeito, a humildade, o carinho, a moral, a gentileza... chamando atenção para que cada um olhe o outro como irmão.
Tal iniciativa ganha espaço na educação de crianças e adolescentes, sobretudo na atualidade, quando cresce no Brasil campanha para conter a violência na educação dos filhos. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assina o projeto de lei que modifica o artigo 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente. Com a modificação, ficará vedado aos pais adotar castigos físicos para disciplinar ou punir os filhos.
Esse projeto de lei de autoria do Executivo federal, que depende agora da aprovação do Congresso Nacional, restringe inclusive as mínimas ações de punição, desde, por exemplo, simples palmadas, vistas até então, por alguns educadores, como medidas profiláticas de combate aos hábitos nocivos, na primeira fase da vida infantil.
Diante, pois, da necessidade premente de métodos inovadores que venham suprir os instrumentos usados na formação básica, o artista Nando Cordel sai, numa firme cruzada pedagógica pelo Nordeste, utilizando-se de belas cartilhas destinadas a crianças e educadores, enfocando áreas essências da prática diária nas escolas e no lar.
Temas quais escovação dos dentes, uso de linguagem apropriada, asseio, religiosidade, sinceridade, obediência e outros, são apresentados de modo didático nesse material.
Sempre demonstrando preocupação com a adoção dos valores positivos, este pernambucano nascido em Santo Agostinho vem visitando as secretarias de educação dos municípios, visando ampliar os frutos dessa tarefa que soma às apresentações musicais destinadas à propagação do conceito da Paz entre as pessoas.
Artista versátil, consagrado fenômeno de inspiração literária e musical, este menestrel se identifica com a gente do Ceará, e, no Cariri, vem prestigiando o trabalho dos Anjos Solidários – Cevema, em Juazeiro do Norte, a consolidar sua história de 25 anos de um talento consagrador.
Além desta campanha em prol do aperfeiçoamento da educação infantil, Nando Cordel também pretende deflagrar um movimento visando aumentar as doações de órgãos humanos, ora em andamento, com músicas e apresentações.
São estas, portanto, boas e possíveis finalidades da arte engajada no corpo da sociedade, quando seus ídolos abraçam causas nobres e retribuem à altura o carinho e a predileção do grande público ao seu trabalho. Dignas de nota as atuais providências de Nando Cordel nesta nova fase de sua carreira artística.

domingo, 25 de julho de 2010

NUMA LUA QUASE CHEIA DE JULHO - Emerson Monteiro

Sob os efeitos recentes da tempestade de emoções vividas por ocasião do lançamento do livro Cariricaturas em verso e prosa, acontecido na noite de 24 de julho de 2010, nas dependências do Crato Tênis Clube, resolvo escrever algumas palavras neste assunto.
Junto dessa vontade, me veio ao pensamento uma polêmica verificada no auge do jornal O Pasquim, arauto brasileiro da contracultura na década de 60, quando o escritor Luiz Carlos Maciel escrevia artigos analisando o conteúdo existencial das letras de Noel Rosa e, sem intenção deliberada, feriu o espírito realista do célebre Millôr Fernandes. Assim, sem querer, provocou cisão irreparável no grupo de artistas e intelectuais do semanário, abrindo brecha intransponível para a sua continuidade. Tudo por conta do modo romântico de olhar a vida sem meias tintas, com fartura de emoções, aos moldes da avaliação literária.
Na tempestade que invadiu o espaço do tradicional recanto da sociedade cratense, nessa noite de autógrafos repleta de escritores, convidados, falas e música, causou espécie a farta emocionalidade do instante. Cercado de amigos que se reencontravam, vindos alguns de lugares distantes, público feliz desfrutou ocasião pródiga e espontânea. Viu-se de perto o Crato criativo, resistente e culto redimido em ocasião típica dos seus melhores dias de antes experimentados.
A festa produzida por Socorro Moreira, Claude Bloc e Edilma Rocha, animada por Hugo Linard e banda, reavivou bons sentimentos do auge de épocas bem especiais guardadas na memória. O mistério dessa intensidade, desse fulgor, lembra a frase de Saint Exupéry que diz: Quando o mistério é muito impressionante não cabe desobedecer.
Em meio ao sucesso das atividades em movimento, busquei agir como quem anda nos corredores internos de uma loja de porcelanas e vidros finos. Tantas valiosas personalidades vistas de perto, ao gosto por literatura, cultura, arte; figuras marcantes todo tempo, nos vários estágios dos caminhos desse rincão forte do Cariri, formaram painel verdadeiro de histórias e ocasiões, no encontro ao natural. Uma grande nave de cumplicidades circunscreveu sonhos pelo ar, feito o clima imponderável dos filmes geniais de Federico Fellini, decerto.
Daí soube as razões internas da vez em que Luiz Carlos Maciel analisou as letras dos sambas de Noel Rosa com a lente dos sentimentos. Porquanto há dimensões que apenas pelo lado de dentro se pode tocar, independentes dos caprichos horizontais da razão fria, das matemáticas.
Nesse aspecto, foi o professor José Newton Alves de Sousa quem, ao agradecer as homenagens recebidas, melhor definiu a voltagem da festa.
Fez menção a outro discurso e consignou mudança radical que, então, vivenciara na fisiologia de seu corpo, pois diante daquilo todo ele se transformava apenas em um coração.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

NAS SITUAÇÕES-LIMITE - Emerson Monteiro

O primordial não é o limite das situações, mas quem escapará delas, que apresentem por mérito o talento de vencer quando atravessar a correnteza dos extremos, através dos mares da dor, da dúvida, da solidão, etc.
A tudo o que existe corresponde um resultado de ordem prática, real, aquilo em forma de produto ligado às origens, resultante do objetivo que lhe deu início, à primeira vontade, levado ao seu fim derradeiro, nessa empresa chamada vida, existência, ou missão. Não importam as circunstâncias e seus variados matizes, pois, chegado ao final, isso também ficará para trás.
O que pesa, no entanto, vem no jeito de encarar os limites, casamento feito do hífen na palavra (situações-limite), nos moldes de uma ponte resistente. Os demais fatores valem por detalhes ocasionais de menor importância, companheiros de meio de viagem, frieza que se torna fundamental só no trato das circunstâncias, na vala comum das ocorrências.
Assim como o verbo ser representa estado de permanência, as situações fazem ligação do que se acha antes com o que virá depois, do ser que define o circunstancial das situações, ligando-as a sujeitos que permanecem até sumir nas curvas da estrada infinita, enquanto existe algo acontecendo conosco jamais sumirá.
O tempo marcha sempre, parado no mesmo lugar, fonte universal de um tônico invisível, imaterial, sol que a tudo purifica, fazendo e desfazendo, presença intermitente da realidade, luz no fim de todos os túneis por aonde se chegar.
O que vale é o equilíbrio entre as partes, a queda e a coisa que cai, a queda e a coisa que se levanta, para depois, de novo desaparecer e reaparecer noutras formas e oportunidades, essência daquilo que gerou, nas eras silenciosas, infinitas.
A propósito desse aparente estado de indiferença com que a natureza trabalha os seus fenômenos e das pessoas terem de cruzar de algum modo problemas extremos, ditas situações-limite, a história registra que Thomas Morus, filósofo inglês vítima de contradições religiosas na Grã Bretanha do século XVI, já enfermo, sem poder mais se movimentar com das forças pernas, ao chegar no cadafalso para ser decapitado dirigiu-se a um dos guardas que lhe acompanhavam e pediu:
- Amigo, ajuda-me a subir, que ao descer não te darei mais esse transtorno.
Quis dizer, noutras palavras, que dele apenas sobrariam retalhos de lembranças jogadas aos padrões da dignidade com que se opôs a cruéis perseguidores. Depois, então, mais nada restaria dos momentos que fogem, dentro da coerência e dos valores imortais desse chão.
Num gesto simples, contou que o tempo não passa; nós é que passamos, e, conosco, as coisas, pelo movimento provisório dos relógios e dos moinhos, iguais ao brilho das ondas de oceano imaginário, no sopro cadenciado do fole que sobra as brasas na oficina eterna do destino forjando, indivisível, o futuro.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A ACADEMIA LAVRENSE DE LETRAS E A AFALAM RECEPCIONAM AURY PORTO

Jeová Batista, Aury Porto, Dimas Macedo, Dona Gessy, Aurineide e espôso e William Torquato.



















Sr. Chiquinho, Malvinier Macedo, Dona Gessy e Diego Macedo

Rosa Firmo, Jeová Batista, Aury Porto, Dona Gessy, Dimas Macedo e Sr. Chiquinho - lavrenses com certeza.




















Solário Favela, Aury Porto e Dimas Macedo.


Duas grandes personalidades lavrenses - o ator e cineasta Aury Porto e o poeta, intelectual e critico literário Dimas Macedo.






















Aury Porto agradecendo a recepção e o carinho dos lavrenses.


Dimas Macedo falando da alegria, orgulho e felicidade que é de saber do sucesso de um conterrâneo em outras terras.





















Dimas Macedo saudando o convidado Aury Porto.


Jeová Batista, Ester Esmeraldo, Regina Favela. Dimas Macedo e Antônio Torquato






















Gomes, Rosa Firmo, Iran Delmar e Jeová Batista.


Sr. Chiquinho, Dimas Macedo, Dona Gessy e Solário Favela - descobrindo as raízes.





















Rosa Firmo (secretária geral da ALL), Ester Esmeraldo (tesoureira da AFALAM) e Jeová Batista (diretor da AFALAM e da ALL)


Dona Gessy (mãe de Aury), Aury Porto, Sr. Chiquinho (pai de Aury) e o intelectual lavrense Dimas Macedo.




















Encontro de lavrenses no Parque Recreio para homengear Aury Porto.


Iran Delmar, Ester Esmeraldo, Cristina Couto e Regina na recepção ao lavrense Aury Porto.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

CADEIRA Nº 36


AURY PORTO (Acadêmico)

Aury de Araújo Correia, conhecido, no mundo artístico brasileiro, como Aury Porto, face à sua atuação como ator e produtor teatral, é natural do sítio Cantinho, município de Lavras da Mangabeira-Ceará (27/06/1964), sendo filho de João Manoel Correia e de Maria Gessy de Araújo Correia, conhecida, carinhosamente, no seio da família, pelo nome de Jessé.
Realizou seus estudos primários em Lavras da Mangabeira, Senador Pompeu e Aracoiaba, localidades para onde sua família se transferiu, mas o seu aprendizado humanístico foi realizado em Fortaleza, onde concluiu o curso de Administração de Empresas, na Universidade Estadual do Ceará, depois de incursões pelos cursos de Química Industrial e Psicologia na UFC.
Paralelamente aos estudos universitários, freqüentou o Curso Básico de Teatro, no Curso de Arte Dramática da UFC, emigrando depois para São Paulo, almejando à carreira de teatrólogo e de ator, face aos apelos da sua vocação.
Em outubro de 1987, depois de duas semanas residindo em São Paulo, estreou na peça Leonce e Lena, juntamente com outros novos atores que, assim como ele, concretizavam sua primeira experiência no campo do teatro, isto com a montagem do texto do grande dramaturgo alemão Georg Büchner.
Entre 1988 e 1990, Aury Porto foi aluno especial e ouvinte em vários cursos de graduação e pós-graduação oferecidos pelo Departamento de Teatro da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
Durante a década de 1990, desenvolveu, ainda mais, a sua aptidão para o teatro, estudando diversas técnicas de dança moderna e contemporânea, e assimilando aulas de canto popular e percepção musical, na Universidade Livre de Música de São Paulo.
Todos esses estudos, associados com técnicas de meditação, compõem hoje a qualidade da interpretação e dos recursos cênicos apresentados por esse grande artista brasileiro.
Nesses mais de vinte anos de trabalho com as artes cênicas, Aury exerceu as funções de diretor, produtor, professor de teatro, dramaturgo e adaptador, tendo feito performances de teatro-dança, montagens de peças de teatro e atuações no campo do cinema e da televisão.
Entre as suas realizações como ator e teatrólogo, podemos enumerar as seguintes: participação na peça As Matronas (dirigida por Paulo Faria, em 1992) e no monólogo Preso Entre Ferragens (dirigido por Eliana Fonseca e apresentado no Teatro Ruth Escobar, em 2000).
A sua participação na peça Boca de Ouro, sob a direção de Zé Celso Martinez Corrêa e exibida no Teatro Oficina de São Paulo, em 2000/2001, lhe deu o passaporte para a sua memorável atuação na peça Os Sertões, apresentada inicialmente na Alemanha e depois em diversas cidades brasileira, contando-se entre elas Canudos, na Bahia, e Quixeramobim, no Ceará.
Ainda no campo do teatro, atuou na peça Os Bandidos, de Friedrich Schiller, dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa e apresentada em Mannheim, na Alemanha, em 2007, e no Teatro Oficina de São Paulo, em 2008.
Em 1998, roteirizou o espetáculo, na área do teatro-dança, Um Homem Comum, a partir do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, com direção de David Schumaker e de Ary Porto; e em 2006 realizou a montagem da peça intitulada Cinzas, apresentada no Teatro Sesc - Pinheiros, a qual igualmente dirigiu, ao lado da dançarina Renée Gumiel, precursora da dança moderna no Brasil.
Durante os anos de 2008 e 2009, tendo por referência teatral a Mundana Companhia, trabalhou na adaptação e montagem do romance O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, juntamente com a atriz Luah Guimarãez e a encenadora Cibele Forjaz, com apresentação entre março e maio de 2010, no Teatro Sesc - Pompéia, em São Paulo.
Adaptou e dirigiu, também, a novela intitulada A Queda, de Albert Camus, que foi exibida no Teatro Sesc - Consolação, em 2007, e no Teatro Oficina, em 2008, como primeira realização da Mundana Companhia, fundada por Aury, em pareceria com a atriz e diretora Luah Guimarãez.
Apesar de ser o teatro o seu campo privilegiado de atuação, participou como ator do filme de José Araújo, As Tentações do Irmão Sebastião, realizado no Ceará, em 2000, e apresentado no Cine Ceará, em 2006.
Na televisão, entre outros eventos, atuou nos seriados Carga Pesada, dirigido por Ary Coslov, e Carandiru – Outras Histórias, dirigido por Walter Carvalho, e bem assim na novela A Favorita, de João Emanuel Carneiro, todos exibidos pela Rede Globo de Televisão.
Aury, com o seu talento de ator, roteirista, produtor de teatro e diretor é um dos nomes do moderno teatro brasileiro que melhor se firmam no contexto das artes cênicas do Brasil, sendo orgulho do Ceará e das águas do Salgado e do município de Lavras que o viu nascer.( DIMAS MACEDO).







VICENTE DE PAROCA (Patrono)


Neto do poeta Fausto Correia de Araújo Lima e da sua primeira mulher, Olímpia de Araújo Lima (Lolô), Vicente Ferrer Lima ou Vicente de Paroca, como se tornou conhecido, na sua juventude, nasceu em Lavras da Mangabeira-Ceará, aos 07 de março de 1921.
Foram seus pais: Artur Correia Lima (filho de Lolô e de Fausto) e Maria Augusto Lima (Paroca), filha de Ana de Araújo Lima (Nanu) e de Antônio Carlos Augusto, conhecido por Boboi ou Caboclo Carlos.
Contam que a sua mãe era uma mulher de religiosidade exacerbada e que muito se orgulhava dos seus antepassados, especialmente do seu avô paterno, João Carlos Augusto, antigo Deputado Provincial e fundador da oligarquia-mor do Vale do Salgado.
O avô paterno de Vicente foi um dos maiores cantadores de viola do Ceará, na segunda metade do século dezenove. Estudou com o Padre Cícero Romão de Juazeiro, no Colégio do Padre Rolim, em Cajazeiras, na Paraíba, e depois se tornou amigo e compadre desse grande taumaturgo do Nordeste.
Vicente cresceu ao abrigo dessas influências, estudou com professores públicos em sua terra, participou do cotidiano da velha Princesa do Salgado, mas a sua vocação de artista sempre falou muito alto em sua alma, levando-o inicialmente para Fortaleza, onde foi aluno do tradicional Liceu do Ceará.
Um dos seus colegas de aventura juvenil, na época, Paulo Bonavides, fala, ainda hoje, com entusiasmo, da sensibilidade cultural de Vicente, destacando os encontros em sua residência, na Rua do Imperador, a sua intuição de artista e o cuidado especial do poeta com a sua cabeleira.
A era do rádio e os eflúvios culturais do pós-guerra pegaram o destino de Vicente Lima pela mão. Começou como cantor e locutor da Rádio Iracema de Fortaleza, passou depois por João Pessoa, pela Rádio Industrial de Juiz de Fora (MG), Rádio Guarani e Rádio Capital, de Belo Horizonte, e por diversas rádios dos Diários Associados, inclusive no Rio de Janeiro.
Além de radialista, atuou Vicente Lima como teatrólogo, ator, encenador, roteirista e diretor de musicais na agitada Belo Horizonte das décadas de 1950 e 1960, onde tornou-se figura popular, recebendo, inclusive, homenagem da Câmara Municipal daquela importante capital, em 09 de maio de 1996, mercê da sua militância cultural e do seu talento de artista.
Escreveu e encenou diversas peças de teatro, entre elas Jacanã (burleta em dois atos), Retalhos do Nordeste e O Espetáculo é Assim, nas quais coloca em discussão a bravura do vaqueiro, a alvorada no Nordeste, a hilaridade do cotidiano e a força indomável das nossas raízes populares.
Vicente Ferrer Lima ou ainda Vicente de Paroca, como carinhosamente a ele se referem os seus conterrâneos, sempre se deixou envolver pelo mais puro enlevo da poesia e pelas notas musicais que arrancou da sua alma de tenor e seresteiro, de compositor e de boêmio, e de intérprete maior de Vicente Celestino.
Em 1953 a sua marchinha de carnaval, Rosalina, alcançou primeiro lugar em concorrido certame musical em Juiz de Fora, realizando Vicente, por igual, diversas apresentações como cantor, destacando-se entre elas o Festival de Vicente Lima, a temporada na Boite Acaiaca, em Belo Horizonte, e a turnê ao lado de Oswaldina Siqueira, então cognominada a Princesa do Rádio.
O seu sucesso de compositor, cantor, tenor e seresteiro invadiu a década de 1960, e o resultado desse êxito expressou-se na gravação de discos e compactos, destacando-se entre todos aquele intitulado Baú da Saudade, que foi apresentado em forma de CD.
O conjunto dos seus poemas inéditos ou publicados em jornais e revistas foram por ele reunidos no livro Sertão Diferente e Outros Poemas, e outras tantas criações de sua autoria, no campo literário, estão sendo compiladas no volume Poemas e Canções, graças à atuação dos seus filhos Vicente Ferrer Lima Júnior e Geralda Soares Lima.
Em ambos, o traço indelével do seu jeito de ser, da sua alma romântica e enlevada, do seu amor ao Nordeste, ao Ceará e ao Brasil, não faltando a marca registrada do profundo amor à sua terra.
Lavras da Mangabeira e a brisa do Salgado, o Boqueirão de Lavras e o fervor de todos os seus conterrâneos e amigos orgulham-se desse grande poeta, cantor e seresteiro, falecido aos 09 de setembro de 2001.
A Academia Lavrense Letras, ciente do seu valor no plano cultural, o elegeu patrono de uma das suas Cadeiras, e o elegeu também para brilhar, entre os lavrenses que mais distinguiram a sua terra. (
(DIMAS MACEDO). Fortaleza, 05 de março de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A COISA CERTA, NA HORA CERTA - Emerson Monteiro

Tantas vezes nos pegamos a considerar se agora estamos onde deveríamos estar, que, ao menor sinal de desencanto, queremos logo saber qual seria um outro jeito de agir e procurar alguma inspiração que satisfizesse as nossas ações improvisadas. Por isso, existem os jogos de azar e os ledores da sorte espalhados neste chão.
As voltas que dá o mundo impõem condições rigorosas no uso do tempo e da liberdade. E uma palavra dita fora de hora, ou de maneira equivocada, corre o risco, não raras vezes, de cobrar preços elevados em termos de sofrimento, o que leva a pensar se haveria outros modos de trabalhar a vida e acertar com mais frequência, sem a presença tão rotineira do erro.
As considerações filosóficas criam esquemas de as pessoas funcionarem com mais sucesso quando gastam idade e saúde, estudos esses que demonstram, em mil doutrinas, religiões tradicionais, saídas particulares e até aventuras errantes, desastrosas, quanto à existência.
Os autores mergulham fundo nessa busca de rever o tempo que passou nas suas vidas, um esforço extremo de consertar aquilo em que falharam, e recuperar a fase auspiciosa da juventude, através dos frutos aprendidos nas experiências. No entanto, o que passou, passou; não volta mais; no que pesem as belas produções artísticas disso resultantes. Lindas melodias, raros livros, telas afamadas.
Os rastros deixados na estrada desta vida significam aquilo em que se transformaram os verdes anos de cada criatura, marcas fixadas no próprio corpo das pessoas, sobretudo na face engelhada, olhares cansados, caminhar incerto; nos dentes perdidos, barriga aumentada, frágil musculatura.
- Ah, se, quando jovem, eu soubesse do que agora sei tudo seria bem diferente na minha história, – afirmam de alguns espectadores arrependidos. Se, palavrinha poderosa, contudo, neste caso, ineficaz para gerar novas consequências. O que significa mesmo já ficou gravado nas trilhas da eternidade, restos de saudades, frustrações, lembranças.
Daí essa dúvida recorrente de saber sempre do lugar certo e da coisa certa ao se encaminhar durante cada momento. Parar e pensar, calcular, planejar, pois todo cuidado é pouco, na utilização dos dons preciosos de existir e dispor da saúde enquanto andamos nesta jornada cotidiana.
Uma crença positiva e as largas esperanças enchem os dias, alegram o espírito e alimentam o trato com os nossos semelhantes, isto sem preconceito e com animação e respeito, nutrientes essenciais da boa convivência. Naquilo que ignoramos, a realidade ensina que sábio é quem planta o bem para depois colher as dádivas da santa felicidade.

terça-feira, 13 de julho de 2010

CÉDULAS ELEITORAIS - Emerson Monteiro

Em um desses programas de televisão que mostram personagens remanescentes da história, assisti a depoimento de um senhor alemão que presenciou o momento exato quando Hitler reuniu multidão, lotando o maior estádio de futebol de Berlim, para, depois de emocionado discurso, consultar a propósito da sua decisão de fazer frente ao resto do mundo e iniciar a Segunda Guerra Mundial, destruindo a paz e ceifando milhões de vidas.
Naquele momento de consulta popular através da aclamação pública, o entrevistado via se configurar iminente a séria catástrofe que atingiria a humanidade inteira, por conta do gesto tresloucado ali resolvido sem qualquer apelação. Contudo nada pôde fazer para impedir a horda que avassalaria os destinos da civilização, porquanto seu voto representou apenas minoria vencida, em meio aos gritos histéricos da massa humana que, favorável ao espírito do ditador incoerente e perverso, assinava cheque em branco entregue nas mãos de frio e sanguinolento psicopata.
Soubesse o elefante a força que tem, o leão não seria o rei dos animais, afirma provérbio indiano, para considerar a verdade indiscutível dos acontecimentos na balança das coletividades.
Avaliassem os eleitores o peso de cada um dos votos que depositam nas urnas, e as sociedades decerto haveriam de conquistar níveis superiores de aperfeiçoamento e progresso durante toda a sua caminhada evolutiva.
Certa vez, ouvi D. Violeta Arraes falar com propriedade a respeito do quanto o povo francês considera importantes os turnos eleitorais, instantes solenes das decisões do futuro. Isso por conta do que a França já sofreu nas garras de aventureiros incompetentes, que lhe submeteram aos traumas de tragédias imensas, porquanto nenhuma família francesa atravessou o século XX sem amargurar o drama da escolhas infelizes de irresponsáveis que dominaram o continente europeu, levando-o a marcas dolorosas e profundas.
Bertolt Brecht, vítima dos desmandos da guerra, define sem meios tons a importância da democracia no poema O analfabeto político, quando assim define:
O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que de sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

domingo, 11 de julho de 2010

AS PORTAS DO ABISMO - Emerson Monteiro

O ser humano vive para responder a desafios, sendo esses ainda mais variados nos dias atuais, desde doenças transmitidas nas relações íntimas até as desigualdades sociais expressas nos da violência urbana que predomina, sobretudo nas cidades maiores, sem no entanto isentar dos crimes bárbaros as menores comunidades, em sua grande parte originados da falta de formação moral, do índice de agressividade crescente dos tempos ditos modernos e da utilização indiscriminada de substâncias bloqueadoras das funções da racionalidade.
Neste ponto histórico da nossa espécie, os exageros se apresentam com tamanha dominação que muitos se deixam abandonar sob o impacto desses desafios, quais meros escravos das avassaladoras ondas de uma destruição perversa.
O senso crítico bem que pode prevenir a vacilação comprometedora. Já partir da infância, os jovens devem dispor de estrutura para superar o sugadouro em que se transformou a cultura de massa, tendo ao comando a televisão, espécie de tóxico permissivo, de poderes inimagináveis, máquina do desequilíbrio, outro tipo de droga, quase sempre usada de modo equivocado para vender sensacionalismo, tolerada acima de qualquer avaliação prévia.
Assim, dizíamos, os jovens têm de descobrir desde cedo como criar firmeza para atravessar a longa jornada no planeta, independente da opinião de terceiros, pois a vida é, na verdade, uma missão individual, fora do juízo dos outros, considerando-se a saúde mental como a peça chave do equilíbrio naquilo que iremos cumprir no rumo da felicidade perene.
Quando detêm consciência do que fazem, os moços procuram agir com superioridade em relação a todos esses fatores adversos. Põem-se a par do valor das coisas simples, dentre elas a lucidez, construindo em si um sonho novo no coração, dentro da realização futura, a esperança dos tempos.
O jovem de hoje nem sempre possui condições de vencer o mar tormentoso da droga, porém deve fazê-lo, custe o que custar de sacrifício das vaidades e afoiteza, em nome de sua própria sobrevivência, porque traz consigo a semente do amor e da paz, respostas plenas de renovação de nossa espécie.
Avalie com carinho essa perspectiva: mantenha sua sobriedade no decorre da vida e verá como as reservas serão suficientes para vencer a todos os desafios. Só então perceberá o quanto há de sapiência nos mistérios da Natureza.

sábado, 3 de julho de 2010

LANÇAMENTO DO LIVRO - ROSÁRIO DE QUITAIÚS - ROSA FIRMO

Fátima e João de Lemos, Jeová Batista, Aury Porto e William Torquato.






















Rosa Firmo autografando o livro para a conterrânea Anita Machado.



Convidadas da autora que abrilhantaram a festa.




Momento de descontração e muita alegria, embalada ao som do órgão e da excelente instrumentista.


Lúcia Maciel, Aury Porto e Antônio Torquato.







Rosa Firmo fazendo seu discurso de agradecimento.


Rosa Firmo apresentando o conterrâneo Aury Porto.


















Aury Porto subindo ao palco para ser apresentado pela autora.




Apresentação do Coral com a participação da poeta e escritora Rosa Firmo.
























Jeová Batista, Aury Porto e William Torquato.

















Apresentação da obra "Rosário de Quitaiús".

Dona Francisquinha aos 90 anos se apresentando para Rosa Firmo.





















O poeta e escritor Dimas Macêdo, a autora do livro e poeta Rosa Firmo e o autor e cineasta Aury Porto.


Jeová Batista abrindo o evento.



sexta-feira, 2 de julho de 2010

UM DIA DE PARTIR - Emerson Monteiro

Em um sonho recente, me vi menino outra vez. Menino bem à época quando parti com minha família do sítio onde nascera, em Lavras da Mangabeira, e viemos viver na cidade, em Crato, na região do Cariri cearense. Sei explicar pouco daquilo tudo, via, no entanto, sacudido de emoções e movimento, a hora da mudança; caminhão, jipe, malas, cacarecos espalhados pela calçada, na casa que meu pai construíra próxima da capelinha do sítio, em colina que divisava lá longe a bagaceira do engenho, a casa grande em que moravam meus avós paternos, uma represa do açude velho e o engenho. Logo embaixo passava, e fazia curva, a estrada principal que levava aos outros sítios mais acima, Grossos, Caraíbas, Santa Catarina, outros mais.
Via-me entre tantas esperas de desconhecido como nunca antes. Eu, menino dos matos, de poucos carros, multidão nenhuma, ignorante de gelo, calçamento. O que sabia de pessoas aglomeradas coubera no terreiro da casa grande na noite em que minha avó promovera uma quermesse de leilão para arrecadar recursos e restaurar a capela. Muitas prendas foram postas numa mesa grande e chegou gente de tudo quanto foi canto, dos lugares em volta. Daí, arriscar sair para mais longe, de onde meu pai voltava todo final de semana e preparara as coisas a fim de irmos morar, seria tarefa das maiores, na cabeça de uma criança de quatro anos.
Mas não me consultaram se queria largar para trás vacas, bezerros, ovelhas, jumentos, galinhas, pássaros, brisa gostosa das paredes de açude, as nuvens, a máquina de costura de minha mãe a cantar que eu observava nas manhãs da varanda, as raposas que meu pai pegava nas armadilhas deixadas no quintal da casa em incursões perversas ao poleiro das galinhas. A casa que só tinha de cimento queimado alguns cômodos, enquanto os demais eram de tijolo rústico, quase chão batido, em que mijávamos na absoluta naturalidade pelo fundo da rede, nas noites frias do sertão.
Fui sendo arrastado naquela voragem esquisita. Minha mãe chorava inconsolavelmente; meu pai preocupado, no meio do povo, a dar ordens na arrumação dos trens; os outros irmãos, Everardo, Lydia, os mais velhos, e Sônia, a mais nova, se perdiam com facilidade em meio àquilo tudo de partida sem esperança de um dia retornar a não nas férias do meio do ano, que aos poucos foram perdendo a graças, na concorrência dos novos apegos da cidade, colégios, amigos, namoradas, filmes, revistas, sorvetes, chocolates, pão do reino, essas bugigangas embusteiras dos mundos industrializados.
Saía de jeito esquizofrênico, forçando a originalidade das coisas no coração da gente, sem ser perguntado se desejava ir, levado para fora do universo inocente onde fora posto também sem ser perguntado. Lembro de poucos detalhes daquela peça rigorosa pregada pelo destino. Uns pedaços de memória afloraram nessa hora de sonho, contudo em algum lugar habita ainda um forte sentimento de saudade particular de mim mesmo, bicho assustado de saudade encolhido no lugar misterioso do qual, vez em quando, resolve sair para pregar das suas e enfiar de com raiva as unhas nos molhes abandonados do tempo, nessas avenidas longas do inconsciente.

terça-feira, 22 de junho de 2010

sábado, 19 de junho de 2010

RIR COM ANIMAÇÃO - Emerson Monteiro

Outro dia, assistindo ao programa Ceará DiVerso, do poeta Vandinho Pereira, na TV Verde Vale, me deparei com o personagem Tranquilino Ripuxado narrando uma de suas histórias engraçadas, que repasso aos leitores do jeito que pude guardar:
Dois compadres que se reencontravam e um deles perguntou ao outro:
- Manoel, você soube da morte de seu Joãozinho do Brejo?
- Soube, sim, compadre. Fui até no enterro dele.
- Pois é, compadre. Eu estava viajando e nem pude comparecer nas despedidas do amigo velho. Mas, compadre, diga como foi lá. Na ocasião, tinha muita gente?
- Ora, compadre, gente, tinha um tanto de gente. Só que nunca vi povo tão sem entusiasmo.
Bom, com esta rápida introdução, quero para falar um pouco da urgência do riso franco, verdadeiro, aberto, nas pessoas dos tempos atuais. Riso mesmo, cheio desse entusiasmo que, por vezes, invade todos os lugares. A história, modelo de irreverência, demonstra que o ato de existir pede alguma participação, vibração, interesse, inclusive na hora das exéquias dos rituais comunitários.
É isso que falta nestes dias de muito compromisso e pouca esportividade, gosto de viver e se animar nas celebrações da existência. Um povo frio, técnico, sisudo, dotado de grandes habilidades no volante dos automóveis, cumpridor das normas e obediências formais, no entanto exausto só de correr atrás da sobrevivência desenfreada.
Numa fase de esforço e preocupação com o dia de amanhã, para si e os seus familiares, patrimônio, fama, trajes e viagens apressadas, festas reservadas, salões atapetados, conjunturas e expectativas, quase nada se nota das cenas de cumplicidade, da leveza de ânimo, do companheirismo...
O riso perdeu aquele elã vital, como que sumiu do rádio, da televisão; os ditos programas humorísticos viraram programas chatos, artificiais, num país de excepcional história de humoristas que marcaram época; em poucas décadas sumiram da cena, e fazer graças virou tarefa, a bem dizer, impossível de voltar a acontecer.
Mais atrás, no calendário, havia os circos nas praças e seus felizes picadeiros, doses cavalares de gargalhas povoadas de palhaços espirituosos, algo típico de um tempo esperançado; linguagem das ruas, dos botequins, alcovas, numa festa inigualável de um Brasil de música inteligente, festas de largo preenchidas de foguetes e felicidade popular.
Quero crer, em face das mudanças climáticas que sacodem o Planeta em bases inesperadas, nisso venha nova safra de animação pelo ar, lembrando os sonhos mágicos da tecnologia nos três séculos transcorridos da Revolução Industrial, que chegou prometendo a democracia dos frutos do trabalho deste mundo.
E para conhecer mesmos os índices de desenvolvimento humano de um povo, observe-se a espontaneidade do riso e das suas comemorações nas conquistas sociais. Pois, no dizer do escritor Oswald de Andrade, a alegria é a prova dos nove.

sábado, 12 de junho de 2010

CONVITE - NOITE DE AUTÓGRAFOS

A escritora e poetisa lavrense, Rosa Firmo, tem a honra de convidar para o lançamento do livro "Rosário de Quitáiús" (Memória sócio-histórica do Distrito), de sua autoria. A obra será apresentada pelo escritor, poeta, crítico literário e intelectual lavrense, Dimas Macedo. O evento acontecerá no dia 01 de julho de 2010, às 19 horas, na Associação dos Fazendários - Rua: 25 de março, 537 - Centro - Fortaleza - CE.

Participem!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

PALAVRAS AO VENTO - Emerson Monteiro

Busco a espontaneidade para chegar aqui na frente desta máquina incandescente e me expressar livre de tensões ou preparações, dizer da apreensão quanto ao meu tempo e seus acontecimentos, qual testemunho do que precisar ser presenciado.
Falar com franqueza a propósito das aberrações que vêm sendo perpetradas pelo próprio homem de cuja humanidade também participo. Erguer a voz de modo objetivo a respeito das fraquezas exploradoras dos países opressores em detrimento dos povos indefesos. Circunscrever as aferições de burrices desencontradas, como a do vazamento esdrúxulo de milhões e milhões de barris de petróleo no Golfo do México, sangria ainda desatada por pura incompetência do capitalismo em desenvolver suas aventuras, detrimento impune da grande natureza, sem que se ergam, nos quadrantes do Planeta ofendido, vozes altivas e eficientes de nações similares, reivindicando a responsabilização dos principais culpados pelos desmandos praticados.
Nas guerras desencontradas dos interesses inconfessáveis da ganância, que possam a delinear os equívocos da destruição em massa de culturas milenares, o que se dá com ênfase no Afeganistão e no Iraque, nesta hora, sem atitude proporcional de repúdio dos bilhões de seres humanos que, apáticos, impotentes, assistem ao genocídio, semelhante ao que outros conquistadores simplesmente consideraram objetivos pessoais dos grupos que representavam, o quanto disseminaram de sangue e miséria Alexandre, César, Napoleão, Hitler, ao bel prazer das circunstâncias maléficas dos tempos, aplaudidas nos bastidores pelos magnatas detentores do dinheiro, dos minérios, das indústrias, mercados, seus financiadores clandestinos insaciáveis.
Agir pelas palavras que os meios permitem, para fincar marcos divisórios entre a consciência e a imbecilidade humanas, deste período, refletindo os valores da minha época, numa função denunciadora dos crimes praticados a céu aberto, à luz do meio-dia, ausentes da penitência daqueles que detêm o lucro, fator da subjugação dos ricos sobre as massas alienadas, relegadas a inúteis planos. Responder, na altura do drama, ao desafio do silêncio cúmplice dos absurdos desmatamentos e tanta destruição dos recursos naturais, a pretexto de produzir armas ou alimentos prejudiciais às espécies, sob os olhares obsessivos da rapinagem detentora do poder no mundo. Enquanto a máquina infernal da propaganda conivente usufrui do repasto oficial, passando caco de vidro por diamante, nas luxuosas feiras internacionais de tecnologia.
Usar a fala numa definição de princípios justos, destacando a honestidade como a melhor política e a dignidade como o único sentido dos sacrifícios coletivos, e fator de sobrevivência social, em um cenário de máscaras e fingimento, quando mentiras proliferam às escondidas e as versões satisfazem ao gosto amargo dos donatários nacionais, na medida em que adotam princípios inconfessáveis para comandar o destino da solitária multidão.
No andamento da escalada histórica de séculos e séculos assim jogados na lama, imprevidentes comandos desfilam, feras indomáveis, nos horários nobres das gerações, e tropas municiadas de sede e esperança gesticulam, nas trincheiras, avisos constantes da natureza seviciada, e sacodem, nos braços doloridos, as marcas dessa cavalgada grosseira. Novos dias, contudo, vêm nas margens do horizonte ao resplendor claro do Sol, exemplo maior de perfeição, num convite aos sonhos de união e paz a velhos corações indiferentes dos autores adormecidos da cena, que somos todos nós.

terça-feira, 8 de junho de 2010

QUE É FELICIDADE - Emerson Monteiro

Todos nós possuímos nossas razões de viver na variação dos interesses transitórios deste mundo cheio de elencos infinitos de pretextos para gozar. Torcer por times de futebol. Acompanhar novelas de televisão. Vícios variados; cigarro, droga, bebida. Mania de ler, de falar, comentar a vida alheia. Ganhar dinheiro. Gastar noites de sono precioso em mesas de jogo. Viajar pelo mundo observando outros povos e costumes. Andar de bicicleta. Passear de automóvel, no gosto e poder aquisitivo de quem usa. Criar cavalos de raça, peixes ornamentais, cachorros, coelhos, galinhas, ovelhas, patos, mocós, etc. Colecionar armas brancas, selos, gibis, mandatos, aviões, jóias, moedas, sapatos, livros, escrituras de terra, casas, perfumes, charutos, admiradores, canetas, vinhos, títulos universitários, entradas na polícia, visitas a museus, carimbos e passaportes, telas e desenhos, endereços eletrônicos, etc., etc.
Falar do que seja felicidade, por isso, reclama de observar cada indivíduo e o jeito se apegar a valores, na medida de cada freguês, pela ótica que lhe é própria.
Uns, visualizam apenas os detalhes; outros, o todo; sempre na intenção de si agradar, de achar satisfação nas jornadas desta vida.
Pelo transcorrer da história pessoal, topamo-nos com as oportunidades para construir justificações aos chamamentos, à proporção em que se aproxima o acerto das contas da história toda. Ainda não existe, contudo, um padrão universal que represente a felicidade, que reúna elementos de certeza absoluta, que explique nossa origem, o que estamos fazendo aqui e para onde iremos depois, nos segredos do Universo.
Há, sim, versões mitológicas, filosóficas, religiosas, acadêmicas, porém prova provada, definitiva, aceita sem conflitos por toda gente e em todos os lugares, isso ainda esperam os habitantes desta terra.
No entanto, viver é preciso, e sob o signo da felicidade, livre do que dizem e pensam as ruas, os botecos e clubes. Só avaliar objetos, sentimentos, fenômenos fica devendo para esclarecer o enigma das gerações. A escolha da adoração particular, sem preencher com clareza o espaço da verdadeira expectativa, mostra limitação que resiste à busca, no entanto, demonstra necessidade de ir em frente, firmes, sem desprezar os deveres de filhos, pais, cidadãos e contribuintes.
No frigir dos ovos, resta, então, mergulhar de cabeça dentro de nós próprios, indo às profundidades da alma, escarafunchar as entranhas, experimentar os sabores na relação com o todo, independente dos sentidos animais, e achar o propósito mais íntimo da realidade.
Nisso encontrar-se-á, na essência, sentimento alto que acolhe de braços abertos, o amor, Ser supremo, ente maior das filosofias, natureza fundamental da Criação, algo semelhante à fonte inesgotável jamais imaginada. E descobrirá transformação noutro patamar de circunstâncias que revelará novos sonhos e dimensões nunca presenciadas nas coisas materiais.
A interpretação, portanto, do que seja felicidade ressurge das virtudes adquiridas nesse acontecimento, após o desencanto dos prazeres fáceis.
Com isso, a vida ganhará novas cores e o palco da fantasia revelará outra possibilidade, no sentido pleno da caminhada. Resultado, o conceito de felicidade ampliará o viver da multidão, que nisso experimenta os frutos e as formas da beleza definitiva de uma nova humanidade.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

COMEMORAÇÃO DE 2º ANIVERSÁRIO DA ALL NA ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS.

Dr. João de Lemos tomando assento para presidir a sessão.






O jornalista e apresentador Evandro Nogueira, abrindo o evento.


Pe. Amorim, João de Lemos, Linhares Filho e Mariazinha.





















Rosa Firmo, esposo e amiga na posse da Nova Diretoria da ALL.









terça-feira, 1 de junho de 2010

SOMBRAS DA ILUSÃO - Emerson Monteiro

A força de seres humanos justificarem seus desejos beira os limites do infinito. No afã de motivar suas ações, pessoas estabelecem objetivos inalcançáveis e enormes sacrifícios individuais e coletivos, a ponto de ocasionar equívocos, atrasos e destruições, invés do progresso. Nisso, os chefes transferem às massas o peso maior das responsabilidades, rápidos mergulhos nas páginas da história bem demonstram com enorme facilidade.
Não fossem os riscos grosseiros lançados às multidões, caso apenas seus autores respondessem pelas ações irrefletidas na própria pele, e seria a conta pela receita, sem queixumes ou críticas, bater a poeira e começar de novo.
Entretanto, os frutos da fome dos dominadores nunca se restringem apenas aos botões que carregam no âmbito da autoridade. Derramam pelos oceanos, confrangem populações distantes, aquecem temperaturas, danificam a saúde pública, aumentam o desconforto das famílias, invadem a paz, sacrificam até a natureza-mãe e atrasam o desenvolvimento social. Eles ocupam os lugares, erram, ou nada produzem do esperado e necessário.
Nessas experiências inúteis e aventuras vaidosas, líderes ocasionais se aboletam nos tronos e esbanjam os recursos de suor e sustento da grande população, juntados, a duras penas, de impostos e taxas.
O sistema democrático virou moeda de troca do jogo político de séculos, nível mais alto da tradição coletiva de todo mundo. Equivaleria àquela coisa que alguns dizem do casamento: ruim com ele, pior sem ele. Ruim com ela, pior sem ela. A democracia, governo do povo, pelo povo, para o povo, mantém os seus caminhos abertos e livres ao acesso de milhões. Diante de um aparato legal, partidos políticos se organizam e a cidadania prevalece.
Porém o governo ideal insiste habitar a casa do sonho. Enquanto a matéria prima humana precisar de aprimoramento, e a moral insistir morar longe da Ética, a pisada é trocar seis por meia dúzia.
Turnos eleitorais, que significariam festas da democracia, viram palcos de negociações interesseiras entre pessoas e grupos, e custam elevadas somas em termos de propaganda, favores, telhas, tijolos, sacos de cimento, dentaduras, varas de cano, bicadas de cachaça, cervejadas, churrascos, naquele império capenga da torpe demagogia, do aviltamento da dignidade e da ausência do decoro, pois viciaram as massas.
Quando, nessas datas, o drama popular ganha ruas e praças; armam-se picadeiros e palhaços sobem nas pernas de pau do marketing político para gritar frases de efeito, no circo da ilusão. Nada justificaria, contudo, fugir dos princípios democráticos. O ânimo de achar o caminho da transparência reclama, outra vez, eleitores conscientes e sempre escolha de melhores representantes e administradores públicos, em nova e rica oportunidade.

sábado, 29 de maio de 2010

AINDA SEM DESTINO - Emerson Monteiro

Neste sábado, 29 de maio de 2010, circulou pelos jornais a notícia da morte do ator norte-americano Dennis Hopper, diretor e coadjuvante de Peter Fonda e Jack Nicholson, no filme Sem destino (Easy rider), película que marcou os anos 60 e sua geração perdida.
Esse clássico enfoca, sem meias tintas, o drama daqueles finais de século, numa fusão sintomática de drogas, sexo e ânsias existenciais da juventude, busca desesperada de encontrar o promo do crescimento tecnológico impaciente e recheado de fascismo opressor, frieza inútil da macroestrutura capitalista materialista, institucional, avassaladora.
Ao lado deste, um outro filme, o inglês Depois daquele beijo (Blow-up), do diretor Michelangelo Antonioni, também refletiria com vigor o quadro sem saída que se desenhava no horizonte das eras e previa nuvens de impossibilidades reais da política, no futuro das próximas décadas mundiais.
Eram tempos de profundas divisões de águas, auge do movimento contestatório dos hippies, quando jovens de todas as classes sociais do mundo se espalhariam, a circular feitos formigas atônitas, catando possibilidades apenas imaginárias, a fim de tranquilizar a consciência das intuições que prenunciavam geopolítica infame a subjugar o âmbito das pessoas humanas.
No roteiro de Sem destino, dois fiéis representantes da contracultura viajam de motocicleta entre as cidades americanas de Los Angeles e Nova Orleans, cruzando impávidas o território estadunidense.
No longo itinerário, sentem de perto a liberdade do espírito aventureiro a lhes sacudir os longos cabelos, pelas estradas desertas, imprevisíveis, expostos e submissos às circunstâncias do acaso desafiador, porém confrontam os habitantes reacionários das povoações interioranas por demais preconceituosos.
Campo aberto para avaliações do tempo histórico totalitário da época, o filme apresenta com sucesso as marcas frias da mentalidade que dominaria logo mais os quadros planetárias posteriores à Guerra do Vietnam e, um pouco adiante, à queda do Muro de Berlim, portas atuais de outros absurdos totalitários.
Em rápido apanhado de verdadeiro profeta, ao término da narração, Dennis Hopper chocaria seus contemporâneos, que aguardavam final menos infeliz, com a explosão amarga da destruição dos dois personagens, cena de uma tocha de fogo produzida pelo disparo das armas dos seus perseguidores. Algo equivalente à incapacidade reconhecida de mudar o sistema plenipotenciário em que se reverteu o sonho das realizações ilusórias deste chão que foge ao contato dos nossos pés.
Hopper tinha 74 anos e morreu por volta das 8h15 deste dia, cercado por familiares e amigos, disse o seu amigo Alex Hitz.

domingo, 23 de maio de 2010

GOSTO NÃO SE DISCUTE - Emerson Monteiro

Triste do amarelo se todos gostassem do encarnado, eis frase que ouvia vezes sem conta de minha sábia mãe, contemporizando o atrito entre os filhos, falando essas coisas da sabedoria popular, segundo ela, aprendidas de seu pai, fiel apreciador dos dizeres do povo. E eu guardo com carinho algumas dessas pérolas definitivas que bem representam filosofia natural, transmitida de geração a geração pela oralidade.
Bom, quanto à questão do gosto, aos poucos a humanidade vem descobrindo o valor da diversidade nos assuntos da civilização. Vinícius de Moraes, numa de suas composições, afirma: Se todos fossem iguais a você que maravilha viver. Diz, mas já sabendo que a vida significa a contagem regressiva da morte, daí a beleza hipotética de seus versos. As dez mil coisas formam o teatro do Universo. O que seria da comédia se todos gostassem da tragédia?
Em matéria de literatura, vale lembrar que Franz Kafka em vida não chegou a publicar uma única de suas obras geniais, restando só à posteridade o raro prazer de apreciá-las. E outro expoente das letras, Jean-Paul Sartre, recusou o prêmio Nobel da Literatura vistas suas razões políticas, desmerecendo no gesto a tão ambicionada comenda dos autores mundiais.
No Brasil, quando Euclides da Cunha publicou Os sertões, trabalho de fôlego a retratar, na visão das elites brasileiras, no conflito de Canudos, retirou-se para uma fazenda no interior paulista pressentindo o fracasso da edição, e ele escolhia se distanciar para não presenciar de perto. Contudo, rápido o livro se esgotava e, ainda hoje, é reconhecido e admirado por muitos.
As diferenças formam o grande todo. Existem pessoas que preferem chã de dentro invés de músculo, e nem por essa razão todo dia se deixa de matar boi. Tem quem coma seus tecidos, independente do nome das partes ou da consistência da carne.
Isso porque há gosto para tudo. Caso as pessoas a quem decepcionamos vez em quando, as quais chegam a formar verdadeiras multidões, exigissem mais de nós ao nos conhecer, por certo facilitariam, com isto, nossa caminhada e economizariam fortunas em sofrimento para si e para outros.
Ser exigente nas escolhas, portanto, evita transtornos futuros e suprime a ilusão dos que se imaginam superiores, quando, na verdade, pecados e virtudes acham-se distribuídas em proporções equitativas no espaço da natureza, sem injustiças ou privilégios, vindo daí o segredo valioso da conformação. E maiores são os poderes de Deus.

sábado, 22 de maio de 2010

PROJETO FICHA LIMPA - Emerson Monteiro

Afinal o Congresso aprovou (dia 19 de maio de 2010) o projeto Ficha Limpa, dificultando assim o registro de candidatos às eleições brasileiras que hajam sido condenados por crimes graves após decisão colegiada da Justiça (mais de um juiz). A inelegibilidade do político será de oito anos.
Eis medida das mais prudentes, que de há muito reclamava definição, porquanto lugar de apenado é sob a guante da Lei e não a representar faceiros a coletividade, numa atualização das melhores, pois, com ênfase neste ano eleitoral.
Filtrar ao máximo vira assim palavra de ordem na política brasileira e afasta do cenário graves ameaças que circulam livres nos corredores das urnas, a cada pleito.
Sabe-se, no entanto, que a decisão final da política veem dos eleitores. As práticas carecem de urgentes mudanças no trato com o voto, sobretudo por parte dos responsáveis diretos pelo assunto, no caso os votantes.
Inexistiriam corruptos não houvesse corruptores. No caso da política, o procedimento torna-se de mão dupla. Corruptos e corruptores tendem a se confundir no decorrer da dramatização, palco eivado de vícios crônicos.
Quando candidatos inescrupulosos aliciam batalhões de eleitores para chegar e permanecer nos mandatos agem premidos pela solicitação das benesses fruto da inanição secular do mercado em que se tornou o território das madrugadas eleitoreiras.
O mesmo tanto ocorre no instante em que eleitores estendem as mãos para receber benefícios, inconscientes do poder auspicioso que tem o voto na determinação do futuro da sociedade.
Aspira-se, por isso, diante da recente decisão que os fichas limpas honrem o vigor da nova legislação e que o panorama da política nacional mereça valores proporcionais à grande carência de líderes comprometidos mais com o povo do que consigo próprios e suas camarilhas ambiciosas.

sábado, 15 de maio de 2010

PADARIAS ESPIRITUAIS - Emerson Monteiro

Elmano Pinheiro Rodrigues, cearense de Farias Brito, supervisor editorial da Universidade Nacional de Brasília, desenvolve projeto cultural de semear a boa leitura pelo Brasil. Quando de férias no Cariri, em janeiro deste ano, ele aproveito a ocasião para dar início a mais 40 pontos de bibliotecas nas cidades do Sul do Ceará.
A proposta de Elmano é incentivar a preservação da memória das personalidades locais nas comunidades onde elas viveram e prestaram serviço, as quais, com o passar do tempo, ficariam esquecidas na memória social, adotando seus nomes para as novas bibliotecas fundadas por ele. Um dos exemplos que apresenta: Abelardo Arrais, líder no distrito de Quincuncá, em Farias Brito, o qual, para resgatar memória e obra do líder, realizou na localidade a instalação do que considerar uma “padaria espiritual”, referência ao movimento literário cearense do final do século XIX, em Fortaleza, capitaneado por vários intelectuais, dentre os quais o escritor Antônio Sales. Tinham preocupação idêntica de fomentar o gosto pela leitura no seio da grande população, através de constantes atividades de divulgação das obras literárias.
No seu ofício profissional, Elmano Rodrigues se movimenta com desenvoltura junto às editoras e autoridades, tanto na Capital Federal quanto no Sudeste do Brasil, reunindo por doação livros e conseguindo o transporte destes aos lugares mais distantes que sejam do território brasileiro.
Os livros são adquiridos junto a ministérios, editoras, universidades e secretarias, sobretudo no Distrito Federal.
Para iniciar uma padaria espiritual, ele oferece a primeira cota de 500 livros, aos quais depois virá reunir novas publicações, a depender do interesse de quem se dispuser a levar em frente o trabalho inicial.
Afinal, o livro define bem o que representa um bom amigo. Sempre do nosso lado, observa silencioso nossos passos e traz o apoio nas horas de solidão e dificuldade, além de nos alegras nas horas de lazer. Houve alguém que, com propriedade, afirmou que “uma casa sem livros é uma casa sem alma”.
O livro segue sendo a maior invenção de toda a humanidade, pois se acha na origem das demais iniciativas humanas, somando experiências e transmitindo as novas práticas, de geração a geração.
Quem ainda não despertou para a riqueza da leitura dos livros deve tomar a feliz iniciativa e começar o hábito da leitura o quanto antes, só então irá reconhecer o que tantos vêm dizendo a séculos.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

DIMAS MACEDO RECEBE TÍTULO DE CIDADÃO FORTALEZENSE

Dimas Macedo com o Título de Cidadão de Fortaleza em mãos.

Ontem, 13 de maio, o escritor lavrense, poeta, critico literário, Procurador do Estado do Ceará e membro desta Academia - Cadeira Nº 26, Dimas Macedo, recebeu em Sessão Solene o Título de Cidadão Fortalezense, no Plenário da Câmara Municipal de Fortaleza. Estiveram presentes ao evento autoridades, intelectuais, familiares e conterrâneos lavrenses. Todos orgulhosos e gratificados por tão merecida homenagem.

sábado, 8 de maio de 2010

NO CORAÇÃO DA GENTE - Emerson Monteiro

Passadas se foram situações emocionais e, por vezes, permanecem no âmago do peito, bem no crivo do coração, retardatárias, incoerentes, as mesmas impressões de intenso fervor indefinido nas palavras silenciosas que gritam. Há pouco, impactos vividos no mais profundo da alma pediam gritantes explicações sem resposta, pois dependiam do outros, que duraram dias, meses, existências.
Quais zumbis de qualidade e cores estridentes, tons maiores de ansiedade e desprezo, tais formações nodulosas, invadem a serenidade apenas aparente do cotidiano, filhos diletos das paixões universais, no palco interior desse peito, se arriscam percorrer, por tempo descomunal, os intermináveis corredores dos recônditos lugares do corpo, entra na trilha dos pensamentos através de excursões permanentes de retorno intermitente.
Nisto, bestas solitários portadoras de saudades sombrias, arrastam consigo bolsas pesadas de dúvidas impermeáveis, mágoas fragorosas, culpas sepulcrais, exigências endurecidas, vastas penumbras recorrentes, e, contra a vontade, nos transportam a dimensões reservadas de cavernas escuras, quais guerreiros de dramas ancestrais, postigos de chapéus empoeirados nas jornadas sórdidas da experiência, largados ao abandono diante do monturo supérfluo de horas mortas.
Restos das refeições felizes ali se mexem encarquilhadas, larvas da série da gente nos instantes saboreados quase sempre ao lado de criaturas humanas bonitas, charmosas, fragmentos fantasmas de espelhos desbotados que amareleceram, pétalas secas de livros atirados nas gavetas esquecidas; eles a nos esfregar a cara de palpites pegajosos, reclamos de outras margens impossíveis, erros aflitivos de lances duvidosos, digamos em resumo.
Nalguns momentos, funcionam, sem quaisquer cerimônias, de inimigos da paz interna das tréguas, a chutar contra o patrimônio pessoal. Noutros, agem parecido com micro e dolorosos incidentes suspensos no horizonte do tórax; convergem nuvens de chumbo que teimam em não chover jamais; máscaras de azia, bolos estomacais, cólicas, coceiras...
Só raramente advérbio de modo providencial, menos denso, chega-nos desconfiado em socorro, trazendo notícias de jardins ensolarados, alentos ainda tardios, nervosos, a nutrir de reparo às frustrações lancinantes, marcas vermelhas na vastidão das ilhas abandonadas, testemunhos inconvenientes de perdidos sonhos, amores equivocados, inúteis paisagens das insônias, constelações do universo distante, nos mundos inconscientes; esperanças, talvez, de acasos fortuitos, portais reencarnatórios das soluções futuras, tropel harmonioso dos degraus da verdade eterna.
São os vultos sorrateiros de si próprio, matéria vigorosa da individualidade prepotente, sentimentos, digamos assim, elaborados na ausência da ternura, na busca de termos melhor categorizados.
Bom, nisso de identificar os tais estilhaços flutuantes da corrente sanguínea do ser abstrato e sua dor de existir, império talentoso dos casos clínicos particulares das criaturas atuais, invade-se o tempo da eternidade, nos seis pontos cardeais do intrépido infinito; se chora sozinho, se chora pelos cantos; elaboram-se cantilenas melodiosas, versos quadrados, modernos, perpassados de litanias fragorosas, vendavais insubmissos de súplica que varrem impiedosos as superfícies emolduradas nos eufemismos culturais de letras maiúsculas, decentes, dos valores imortais. Elaborações filosóficas exemplares trabalham as lufadas de tempestade, transformando-as em brisas suaves de manhãs inesquecíveis, conceito civilizado da persistência, feras descomunais extintas se nos mudam mais mansos animais de estimação; quadros fortes de museus; livros encadernados e suas lombadas brilhantes, dose certa depositada nas prateleiras das academias públicas, pedaços conservados nos sarcófagos das gerações futuras; fogueiras apagadas viram rescaldos mornos, a encher de lágrimas doces olhos ardentes...
E cada um rompe o hímen da cena seguinte, com as faces das corujas atormentadas, porém calmas no esquecimento de quem vive com pressão cardíaca nas raias da normalidade, medidas ideais do expediente, destemor na ponta da língua afiada, épicos do espetáculo revivido, máquinas da permanência, seres eficientes do inesgotável destino, altivos palatinos da utopia, páginas de velhos almanaques, último lançamento de grife, etc. Sentimento, generosidade, coração. Expressão, animação, vida. A alma perpétua deste mundo. Veemência de sentimento; entusiasmo, arrebatamento. Pessoa, indivíduo... Arre, quanta letra em espaço tão pequeno só para dizer que dói viver, e angustia sentir paixão não correspondida...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

CONVITE

O Presidente da Câmara Municipal de Fortaleza,
Vereador Salmito Filho.
Convida para Sessão Solene de entrega do
Título de Cidadão de Fortaleza
ao escritor Dimas Macedo.
Projeto de Decreto Legislativo de autoria do
Vereador Paulo Facó.
A realiza-se às 19h30min
do dia 13 de maio de 2010,
No Plenário Fausto Aguiar Arruda.
Traje: Passeio Completo
Endereço: Rua Thompson Bulcão, 830 - Luciano Cavalcante.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O RISCO DAS GENERALIZAÇÕES - Emerson Monteiro

Onda recente de notícias trouxe aos meios de comunicação ocorrências de pedofilia no seio da Igreja Católica, revelando as marcas humanas no seio da milenar instituição e sua longa história. Pessoas, sobre as quais pesavam responsabilidades extremas para o encaminhamento moral das novas gerações, no momento seguinte se veem no foco de acontecimentos ilícitos, a permitir o crivo da civilização que explora ao máximo o sensacionalismo e tende a precipitar conclusões, numa época fértil em denominações religiosas.
Defronte do quadro das mazelas verificadas no interior da maior e mais tradicional condutora de fiéis do Ocidente cabem algumas interpretações que signifiquem algo complementar aos libelos acusatórios impiedosos levantados.
A boa ciência reclama serenidade, invés de precipitação, nos sérios julgamentos. Porquanto há caldo volumoso, ainda a ser considerado, de serviços validos creditados aos quantos conduzem a Barca de São Pedro, como se costuma chamar a Igreja.
E no andar dos conceitos, desponta na memória o trecho da vida de Jesus quando lhe foi trazida ao exame uma mulher adúltera, que entre os judeus sofreria execução pública por causa do crime praticado, no império da lei vigente.
Perguntado qual sua posição ante a sentença, o Divino Mestre devolveu aos maiorais daquele povo, prontos exercer a pena e matar a mulher, as célebres palavras evangélicas: “Quem estiver sem pecados, atire a primeira pedra” (João 8, 1-11).
É isso que vem ao pensamento, na sede justicialista dos que reclamam justiça fria e cruenta aos delitos identificados nos grupamentos católicos, de algumas localidades do mundo, a esquecer aspectos valiosos de sensatez do conjunto católico, nas eras da sua história, evidenciando a exclusiva falibilidade humana dos níveis individuais de cada crime, o outro nome da generalização preconceituosa.
Igualmente, quase sempre os autores das severas condenações esquecem dos débitos da humanidade para com os sucessos multiformes da Igreja Católica em lances benfazejos. Apontar, de modo único e fatal, ordenar a pronta lapidação da instituição como responsável exclusiva pelos defeitos da raça composta de muitos indivíduos, que deve também ao espírito da justiça cristã sua vasta formação de mentalidade civilizadora, sujeita impor aos bons dores fruto de pecados particulares de uma parte desse todo, a denotar parcialidade e ingratidão.
Nisso a História prescreve um exame consciencioso dos casos indesejáveis e suas imediatas reparações, rumo aonde o joio nunca seja o trigo, sem pretender generalizar motivos parciais, coerência esta que ensina a Verdade, nas promessas do eterno Amor.